Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / A arte de viver e de morrer

Texto publicado na edição #111

A arte de viver e de morrer

O romance Manual da paixão solitária, de Moacyr Scliar, discute a condição humana, em seus mais diferentes aspectos, entrelaçando desejos […]

> Por VILMA COSTA

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária

O romance Manual da paixão solitária, de Moacyr Scliar, discute a condição humana, em seus mais diferentes aspectos, entrelaçando desejos e paixões ingovernáveis com preceitos morais e regras sociais rígidas; tempos míticos e, portanto, longínquos, com uma contemporaneidade presente; devaneios, sonhos e premonições com a crueza de uma realidade histórica concreta e inexorável. A partir da sintética narrativa de um fragmento do Velho testamento, todo o romance é engendrado de tal maneira que os principais elementos bíblicos, apesar de se manterem como referência, são ressemantizados através da leitura, ou melhor, da reescrita romanesca. A trama narrativa guarda, até certo ponto, a simplicidade da ação do texto original, na medida em que os personagens apresentados desenvolvem suas ações de maneira linear e relativamente previsível. Por outro lado, o que parece simples ganha complexidade na maneira como são articulados tanto o tempo quanto a construção dos personagens.

O tempo histórico se desdobra entre o momento contemporâneo e um passado distante. O primeiro dramatiza o universo intelectual de uma suposta Sociedade Cultural de Estudos Bíblicos que, ao organizar seu congresso anual, “selecionou uma passagem bíblica como tema central do encontro: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos e de uma mulher chamada Tamar”. O objetivo do evento, segundo seus organizadores, era “estudar a Bíblia sob um enfoque científico e cultural”. Como isso poderia acontecer, em meio a tantas paixões, é uma outra história.

Quatro personagens destacam-se enquanto focos narrativos que se cruzam e interagem como fios constitutivos do tecido textual. Shelá, o filho caçula de Judá, e o historiador Haroldo Veiga de Assis conduzem a primeira parte do romance. Na segunda parte, Tamar e Diana Medeiros, esta também professora, ex-aluna e ferrenha opositora do professor Haroldo, assumem a condução da trama e, assim, sob um outro ponto de vista, a história é recontada. Entre estes dois enfoques há outra voz, diríamos, mediadora, que se apresenta em terceira pessoa, com uma introdução, uma finalização e uma pequena explicação interligando as duas partes do livro. Este último ponto de vista é claramente marcado e diferenciado através do tipo de letra em itálico que serve de sustentação para o discurso. Há ainda referência rápida e vaga a um “autor” que assume o papel de costurar ou garantir coesão e coerência a fatos, emoções e personalidades tão diversas e conflitantes.

Sedução do ouvinte
O Manuscrito de Shelá, “encontrado recentemente numa caverna em Israel”, tem um destaque muito especial. A sua leitura pelo famoso especialista e historiador Haroldo Veiga de Assis apresenta a uma platéia ávida de novidades o relato de um personagem quase insignificante para o texto original. O ponto de vista de Shelá estabelece uma relação de proximidade e identificação com o professor, que ganhou notoriedade por sua criativa e audaciosa maneira de abordar a História Sagrada. Sua retórica de pretensão científica, contudo, transita nas vielas das artes cênicas e literárias, nas quais o caráter imprevisível garante a sedução do ouvinte, espectador e leitor. Sob esse eixo é que vai sendo construído, propriamente, a primeira parte do livro. Na segunda parte, a história é contada dentro do ponto de vista feminino. Usando o mesmo subterfúgio da documentação de um manuscrito, Diana Medeiros lê a história como se fosse contada por Tamar, guiada pela mesma seqüência da ação bíblica, mas, claro, com outro enfoque.

O ponto de partida sob o qual Manual da paixão solitária se sustenta não traz em si qualquer originalidade, tanto no que se refere à obra de Moacyr Scliar quanto a de seus contemporâneos. A mulher que escreveu a Bíblia e Os vendilhões do templo são dois romances exemplares dessa tendência. Outros autores de origens e estéticas diversas se aventuram por esse caminho com considerável sucesso. Isso tudo porque o texto bíblico, além de todo teor religioso e conteúdo histórico que contém, traz em si um leque muito amplo de simbologias de nossa civilização que o torna um terreno muito fértil para a imaginação artística e criadora. É, sem dúvida, o que é conceituado, nos dias atuais por um hipertexto, sobre o qual muito já foi dito, mas muito ainda se tem a dizer, ou referendando seus preceitos, preenchendo lacunas, ou em direção oposta, a “contrapelo”, estabelecendo pontos divergentes de interpretação. A relação íntima da História com a literatura, tem aí sua principal origem. Partindo dos relatos orais, até a fixação nas técnicas mais rudimentares da escrita, a História Sagrada inaugura a leitura hermenêutica, ou seja, interpretativa. Sua linguagem econômica, pautada na ação, cercada de fascínio, de símbolos e de signos, desdobra-se em interpretações sempre renovadas, atualiza os mitos, aglutina comunidades, internaliza e explora individualidades. Reafirma, portanto, o poder da palavra e a sua perenidade no decorrer dos séculos, da oralidade popular, passando pela escrita dos pergaminhos, até a prática dos textos eletrônicos.

Consideráveis riscos
Scliar, em entrevista à TV Estadão, pondera: “Eu não leio a Bíblia de maneira religiosa, eu leio a Bíblia de maneira literária, pelo fascínio que ela exerce sobre os leitores e isso explica por que tantas vezes, ao longo do tempo, a Bíblia foi o ponto de partida para escritores”. Reescrever um tema bíblico, contextualizado nos dias atuais, implica consideráveis riscos, que o autor do romance não se nega a correr movido pelo mesmo desafio apaixonante no qual transitam também seus personagens.

Em Manual da paixão solitária, o mais instigante não se encontra no confronto entre os fatos de cada uma das versões da história em si. Estes, de certo modo, completam-se, ou seja, servem para amarrar a trama ao servir um para o outro como complementos confirmatórios. A partir de um o outro se torna plausível, de uma maneira fechada, até demais, para quem busca secretamente desvendar enigmas. Não parece ser essa a proposta do romance. O enredo é um aspecto importante, mas não determinante numa leitura mais abrangente.

O que torna fascinante o desafio da leitura é atentar para as perspectivas das vozes dos personagens; como novas histórias se configuram nas individualidades que cada voz manifesta; como o tempo histórico, de feitos e realizações, se debate com o tempo mítico, do sonho e do desejo e, mais, como um discurso épico da trajetória de um povo ganha força nas expressões individuais de sujeitos líricos e artísticos que tomam a forma de personagens. O termo coletivo do “nós” bíblico é retomado pelo “eu” de um sujeito que sabe de suas dores, paixões e desesperos e tenta deixar de ser alguém “sujeito” às leis da tribo e da sociedade para tornar-se sujeito de si, de sua história, através da expressão, da palavra e da arte. Neste sentido, os textos de Shelá e de Tamar são suficientemente ricos para levantar questões contemporâneas de grande interesse, tanto na esfera pública, quanto na privada.

Sonhos marcaram a trajetória de nossa gente, os hebreus. (…) Sonhamos, sonhamos muito, mas estamos sempre procurando uma conexão entre aquilo que sonhamos e aquilo que realmente acontece, entre fantasia e realidade… em nós, a poesia se associa ao pragmatismo, o devaneio ao cálculo frio. … aprendemos a combinar fantasia e realidade em doses variáveis, de acordo com a época — sempre usando a prudência, o bom senso e, por que não dizer, a astúcia.

Neste trecho do depoimento de Shelá há uma referência ao seu tio José que pelo dom que possuía de interpretar sonhos garante, além da sobrevivência, o prestígio e o acesso ao poder, num mundo que longe de ser doce e plácido se revela cruel e implacável com suas leis e práticas de dominação. O sentido coletivo dado pelo texto bíblico à trajetória do povo hebreu pode ser lido aqui como componente identitário importante na formação intelectual do autor do romance, mas não é tudo. O sentido poético e pragmático do povo hebreu é também generalizante para a capacidade humana de se movimentar nessa lógica na qual saber e poder estão intrincadamente comprometidos. O romance em discussão, ao dar voz a Shelá e a Tamar, resgata uma história que se manteve condenada ao silêncio num passado remoto, mas que assume o poder não através das instituições convencionais, propriamente ditas, mas a partir da voz da astuciosa sabedoria popular que estabelece a conexão dos sonhos e da necessidade de sobrevivência, ou seja, fantasia e realidade.

Sonhador pragmático
É neste sentido que Shelá se refere à sua gente. Pretende afirmar sua rebeldia quanto à maneira de registrar esta história. Parte, em confronto com a lógica coletiva, ao relato de um “eu” que sonha, como um deus, modela no barro várias figuras e nas cavernas obscuras de sua individualidade cria seu mundo. É um sonhador pragmático, que tem um corpo que precisa de alimento, de amor e de prazer. Com astúcia, entusiasmo e irônico humor constrói sua narrativa. “Inventa” o auto-erotismo para sobreviver à falta de parceria sexual e afetiva. Cria um manual de sobrevivência: com as mãos manipula seu prazer, com as mãos modela o barro, com as mãos escreve para a posteridade.

Tamar, por outro lado, também manipula o destino e com astúcia realiza seu sonho de maternidade, resgatando, pragmaticamente, sua dignidade moral e afetiva e sua sobrevivência material. Sua transgressão se dá no completo domínio das leis e das normas que questiona e transpõe. Também é artista, esculpe, cria, inventa e reinventa a vida e a arte de sobreviver e realizar os sonhos. Diana, mulher contemporânea, como suas ancestrais, atravessa as fronteiras de seus próprios limites e transita em dois mundos irremediavelmente inconciliáveis, mas que como imãs se atraem e só se reconhecem um no outro.

É o outro, a alteridade, que cria cada personagem, o renova em seu duplo, redime as injustiças da história e possibilita a criação, a transcendência, a outra vida. Segundo Otavio Paz, “a experiência da outricidade é aqui mesmo a outra vida”. O objeto amado, o outro, a poesia e a narrativa abrem todo esse leque. E assim, a palavra poética “não se propõe consolar o homem da morte, mas fazer com que ele vislumbre que a vida e morte são inseparáveis”. O passado remoto e o presente se manifestam na polifonia de vozes do romance. Este reúne fragmentos de vidas que se entrelaçam e buscam legitimidade, mesmo que na dispersão e conflitos de interesses, paixões e solidões. Nesses signos em rotação é que se impõem a escrita e a arte como manuais das paixões solitárias de viver e de morrer.

“Recuperar a vida concreta significa reunir a parelha vida-morte, reconquistar um no outro, o tu no eu, e assim descobrir a figura do mundo na dispersão de seus fragmentos.”

LEIA A PARTICIPAÇÃO DE MOACYR SCLIAR NO PAIOL LITERÁRIO.

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Moacyr Scliar_livro

Moacyr Scliar
Companhia das Letras
215 págs.