Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / A arte de criar sentidos

Texto publicado na edição #109

A arte de criar sentidos

O romance O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, é um convite para a leitura mais atenta da obra do […]

> Por VILMA COSTA

Bernardo Carvalho por Osvalter

O romance O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, é um convite para a leitura mais atenta da obra do autor como um todo. Isso porque, ao discutir diversos temas através de uma multiplicidade de narrativas, obsessões anteriores retornam com toda força. A guerra, a maternidade, uma história de amor que se destaca no meio de tantas outras e a busca de sentidos para a vida, num momento em que o absurdo da morte dá a tônica, vão se afirmando como eixos aglutinadores de diferentes e intrincadas tramas. Produzido no sentido de compor a coletânea Amores expressos, o romance se mantém preso à temática sugerida, ampliando seu leque. O projeto da coletânea, além da temática amorosa, fixa um espaço de ambientação a partir da vivência dos autores em determinadas cidades. Para Bernardo Carvalho coube São Petersburgo (Rússia), onde, durante um mês, viveu alguns sobressaltos e pânicos que o ajudaram a alimentar sua imaginação.

A guerra da Tchetchênia e o ano de 2003 servem de referência para a criação do contexto histórico de representação. Mais que situar a narrativa em tempo cronológico e espaço específicos, remetem ao momento em que vivemos no qual o sentimento de não pertencimento faz de qualquer lugar o não-lugar, por excelência, o espaço de estranhamento. Isso é enfatizado por um narrador onisciente, em terceira pessoa, que assume o controle de tudo a partir de um olhar tão estrangeiro quanto a condição dos personagens que ganham vida através desta criação.

O romance divide-se em três partes: Trezentas pontes; As quimeras e Epílogo. A primeira parte constitui-se em quase a metade do romance. O livro inicia-se e termina às vésperas das comemorações do tricentenário da cidade, daí a referência: “construíram trezentas pontes, uma para cada ano, mas nenhuma leva a lugar nenhum”. Ruslan, um dos personagens principais, é apresentado ao leitor. Sob a proteção de uma avó devotada, é encaminhado a São Petersburgo para tentar sobreviver. Ao aproximar-se de Anna, a mãe que o abandonou ao nascer, esbarra em uma série de dificuldades que só reafirmam sua solidão e desamparo. Por outro lado, Anna e a família que constituiu vivem relações conflituosas, cercadas de omissões e cumplicidades.

O amor e seus perigos
Na segunda parte, o foco está em Andrei, soldado do exército, submetido a algumas atrocidades pelo poder dominante, recruta desertor e, portanto, fugitivo. Aqui são problematizados todos os conflitos de Olga, a mãe que não teve coragem ou não pôde salvá-lo das garras desse sistema. Contudo, em contato com mães da Associação, mobiliza-se para providenciar um passaporte, que possa levá-lo ao Brasil, para encontrar o pai, que o espera nas cercanias do Amazonas. Ainda aqui é que se dá o encontro com o batedor de carteira, com o amor e seus perigos. “É possível que não se dê conta de que terminou por associar o sexo às ruínas e ao risco, à força de tê-lo descoberto em meio a uma guerra…” As quimeras que dão título a esse capítulo surgem enquanto aberrações, que segundo a cultura popular são portadoras de mau-agouro. “Era um animal estranho parecia um potro, mas era outra coisa, dois fundidos em um só.”

O que parece ser, num primeiro momento, a história do encontro amoroso entre dois rapazes que vivem situações limites e inverossímeis, no meio de uma guerra e de uma cidade por ela afetada, transforma-se numa discussão sobre o amor como antídoto para o desamparo e para a impotência da condição humana, ao mesmo tempo força e fragilidade. Neste sentido, é que o esforço desesperado de uma associação de mães para salvar seus filhos torna-se eixo da ação. A maternidade, a partir da gama de sentimentos extremos que suscita, nesse contexto, é um prato cheio para a realização do romance. Não se pode caracterizá-la propriamente como temática, é mais uma problemática a compor a rede de intrigas.

As mães têm mais a ver com as guerras do que imaginam (…) Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães têm horror a perder (…)

A leitura pode ser bastante enriquecida se nos reportarmos a outras produções de Bernardo Carvalho. Todos os contos do livro Aberração (1993), por exemplo, tematizam a tensão entre o mergulho no não senso de uma realidade desrefencializada e a necessidade de entender e resgatar fragmentos do mundo. No conto O arquiteto, o narrador se depara com um absurdo, segundo sua lógica. Após ter construído uma Cidade Ideal subterrânea, protegida de todos os perigos da superfície, descobre com espanto e tristeza que a mulher desaparece de sua vida carregando o filho. Para ele não fazia sentido aquela fuga, e tantas outras, geralmente, de mulheres com seus bebês: “Que aberração! Salvar de quê, se a cidade eu construí para ela? Uma cidade… onde não houvesse mau tempo”. A fuga se dá através de um ponto cego, que como todo signo está sujeito a interpretações e enganos. Como São Petersburgo, “a cidade foi construída para ninguém escapar”.

Amor incondicional
O amor de mãe neste novo romance é retomado enquanto uma questão de conteúdo extremado. Não se explica muito por que não pode haver guerra sem mãe. O fato é que a loucura do amor incondicional, repleta de proteção ou o desamor culpado do abandono, vem carregada de sentidos para a vida dessa humanidade desesperada, que precisa de expressão. Afinal, “todo mundo tem mãe. Até o pior canalha, o pior carrasco. Não deixa de ser uma espécie de fanatismo”. Até mesmo o filhote, a quimera, aberração rejeitada pela natureza e pelos homens, é filho da mãe, é filho de “uma vaca que lambe, bovina a cria…” que pariu.

Aqui há uma quebra da doxa tradicional, ou lógica racional, para se estabelecer uma paradoxa, na qual os sentidos são invertidos.

Porque só invertendo tudo é que você pode ter alguma chance, por menor que seja, de compreender o porquê. Só a lógica do ilógico pode trazer algum entendimento, alguma visão onde tudo se tornou cegueira, fazer você enxergar, por trás da cortina de sentido, um outro sentido que possa dar conta da compreensão do mundo, já que este não funciona, (…) mas já não valia a pena nenhuma explicação.

Já em Teatro (1998), numa tomada metaficcional, Bernardo Carvalho discutia sua perspectiva de criação: buscar a lógica do ilógico, focar em situações limites ou inusitadas, na busca de sentidos que não existem a priori, mas são parcial e precariamente construídos. A construção da lógica do ilógico reside na tensão entre a incomunicabilidade de Babel e o desejo incontestável de comunicabilidade. Permeando este desejo estão os enganos de toda busca compulsiva e inútil de sentidos que, segundo Deleuze, só se dão, efetivamente, no momento da expressão, através da superfície da linguagem.

Fato é que a ânsia de entender alguma coisa acentua-se, quanto mais distante encontra-se a possibilidade dessa realização. Assim, é possível compreender a atração que as narrativas contemporâneas têm por histórias que se apresentam focando experiências extremas, com caráter enigmático. Este não tem mais o mesmo conteúdo que alimentava a obsessão racionalista de chegar a uma verdade absoluta, mas nem por isso deixa de estabelecer tensão e impulsionar a busca, diante de um sentido que se perdeu, como se um outro sentido, por trás da cortina de sentido, como uma segunda pele, ainda pudesse dar conta da compreensão do mundo. Essa dinâmica pode ser encontrada na maioria da produção literária de Bernardo Carvalho. É com alegria que retomo a discussão iniciada em 2001 quando incluí textos do autor em minha tese de doutorado À flor da pele: vida e morte em tempo de tribos.

O maior conflito dessa voz narrativa está na pretensão de ordenar sentidos na tentativa de buscar compreender um mundo que já não funciona. Como afirmava o protagonista de Teatro, apesar de não valer a pena nenhuma explicação, dada a sua inutilidade, compreender o porquê é um movimento imperativo de verdadeira paranóia. Antes de mais nada, segundo este narrador de Bernardo Carvalho,

o paranóico é aquele que acredita num sentido… é aquele que vê um sentido onde não existe nenhum. O paranóico não pode suportar a idéia de um mundo sem sentido. …é aquele que procura um sentido e, não o achando, cria o seu próprio, torna-se o autor do mundo.

Ser o autor do mundo é uma ousadia que implica riscos. E Bernardo Carvalho, como muitos dos seus contemporâneos, arrisca todas as cartas. Experimenta todas as formas e fórmulas para tornar-se o autor do mundo. Em torno de Andrei e Ruslan, crimes, assassinatos, dores, perdas e outras histórias que são criadas, sob esse ponto de vista, são também paranóias. Isso porque, “a mais inofensiva das atividades, como a literatura, também seria um ato paranóico”, uma vez que “a paranóia é a possibilidade de criação de histórias”. Até que ponto esses textos são testemunhas da guerra, do crime, da loucura, apenas paranóias literárias ou todas essas alternativas? Como optar por uma das hipóteses se todas elas se insinuam no discurso como mais uma necessidade do homem de afirmar-se enquanto autor do mundo? O amor e a escrita parecem ser ferramentas importantes de sobrevivência desses autores do mundo, desses criadores e de suas criaturas. O amor e a premência de sua expressão só se fazem possíveis quando não se tem mais nada a perder. É, de certa forma, a afirmação da vida frente a todo horror da morte que mobiliza para a invenção de sentidos, quando parece não haver mais nenhum.

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BERNARDO CARVALHO

Bernardo Carvalho. Foto: Divulgação

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Foi editor do suplemento de ensaios Folhetim e correspondente da Folha de S. Paulo em Paris e em Nova York. É autor, entre outros, de Aberração, As iniciais, Mongólia, Nove noites e O sol se põe em São Paulo.

Faz um mês que começaram as reformas e Anna ainda não se acostumou com a escuridão da sala quando abre a porta de casa ao meio-dia. Falta um ano para a comemoração do tricentenário e a fachada do prédio já está em obras. Até o aniversário estará decrépita de novo. As janelas têm de ficar fechadas, se não quiser ver a casa coberta de pó em poucas horas — o que acaba acontecendo de qualquer jeito, pelo acúmulo vagaroso e imperceptível dos dias, pelas frestas.

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Bernardo Carvalho
Companhia das Letras
208 págs.