A literatura na poltrona

fevereiro 2016 / A literatura na poltrona / A armadura da técnica

Texto publicado na edição #189

A armadura da técnica

Manuel Bandeira precisou se desfazer de suas couraças para escrever

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Hallina Beltrão

Ilustração: Hallina Beltrão

Os elogios, por vezes, embora com efeito inverso ao esperado por aqueles que os proferem, vêm nos libertar de grandes ilusões. Foi assim com Manuel Bandeira (1886-1968). Depois de receber um elogio por poemas publicados no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro — que criara um concurso de versos livres —, o jovem Bandeira cai em si. “O elogio me pareceu muito chochinho na ocasião; pouco tempo depois já estava consciente de que os meus versos não passavam de um exercício poético, sem sombra de poesia”, ele escreve no célebre Itinerário de Pasárgada, de 1954. Não havia liberdade. E como pensar poesia sem liberdade?

É muito importante aqui a distinção entre “exercício poético” — prática regida pela técnica, pela ambição intelectual, pelo esforço cerebral — e “poesia”. A poesia se passa em outra esfera. Está mais próxima das intuições e do desconhecido. Não é o resultado de uma maquinação, mas de um “surto” — isto é, de um rasgão no saber e de uma submissão ao que ignoramos. Começa a constatar Bandeira, naquele momento, que estava prisioneiro da ideia de Progresso. Escreve: “Vejam como eu estava atrasado. Em 1911 ainda não tinha ideia do que fosse verso livre”. Tinha 25 anos de idade. Formava-se — ou melhor, deformava-se, único caminho para escapar do alçapão das regras alheias e chegar a si.

Nesse ponto, ao elogio enfático, Bandeira preferiu o comentário, publicado em outro jornal, do crítico Eurycles de Mattos, que, mais comedido, escreveu: “Tenham paciência os senhores concorrentes cujas poesias foram publicadas pelo Jornal do Commercio: nada daquilo é verso livre”. Sim, Manuel Bandeira ainda não estava livre. De quê? Da própria formação, do peso do passado, da força da tradição. Ainda não estava livre de si mesmo. Passa o poeta, a partir daí, golpeado e tonto, a fazer a defesa dos “instintos”. Descobria-se preso a uma armadura — a da técnica fria e inabalável. Transfigura-se.

O poema Carinho triste é, então, sua primeira tentativa de verso livre. “A tua boca ingênua e triste (…)/ É dele quando ele bem quer”, escreve. “Só não é dele a tua tristeza (…)/ Porque ele não a quer”. Entra em cena o desejo. Agora o poeta se move não só pelo instinto, mas pelos impulsos interiores. Torna-se dono de si. Expõe-se, sobretudo, à influência do francês Guillaume Apollinaire. Rasga seus horizontes, à procura de novas paisagens e, mais ainda, de novas posições. A poesia é inquieta: exige do poeta uma disposição para o deslocamento. A poesia é uma aventura: guarda a aparência de uma viagem sem rumo, a que o poeta se entrega sem defesas e sem armaduras.

No ano seguinte, Bandeira embarca para a Europa, para tratar da tuberculose no sanatório de Clavadel, na Suíça. Para matar o tempo, volta a estudar alemão. Transforma a doença em energia. O desejo, aos poucos, passa a se impor sobre a desagradável realidade. No sanatório, apesar do sofrimento, faz amizades vibrantes com o poeta Paul Éluard, e também com Gala, com quem Éluard se casaria e que depois o deixaria para se tornar mulher de Salvador Dalí. Se Clavadel cura seu corpo, se o restaura, ao mesmo tempo fere e deforma seu espírito. Rasga-o para que o poeta, enfim, chegue a si. Só voltaria ao Brasil em outubro de 1914, em fuga da Primeira Guerra Mundial. Já era outro poeta. A longa meditação sobre a poesia o leva, enfim, a seu primeiro livro, A cinza das horas, de 1917.

No ano seguinte, Bandeira embarca para a Europa, para tratar da tuberculose no sanatório de Clavadel, na Suíça. Para matar o tempo, volta a estudar alemão. Transforma a doença em energia.

Bandeira precisou se desfazer de suas couraças para escrever. Toda escrita poética, enfim, surge de uma libertação — e ele aprende isso. Em Itinerário de Pasárgada, porém, avalia: só se libertou inteiramente das amarras intelectuais com A estrada, poema de 1921. Poema em que faz uma dura crítica ao pragmatismo da vida urbana. “Nas cidades todas as pessoas se parecem./ Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente”. Na pequena estrada (interior) que o poeta percorre, ao contrário, impõe-se o peso da diferença. “Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma./ Cada criatura é única”. O poeta se defronta, enfim, com a potência do singular. “Tudo tem aquele caráter impreciso que faz meditar.” Em vez de ruminação intelectual, em vez de um efeito da lógica, a poesia se torna meditação. Isto é: contato com o inominável e com o indizível. Puro instinto.

Considera Bandeira, porém, que sua verdadeira libertação só acontece no ano de 1930, com a publicação de Libertinagem. Só aí a “metafísica da técnica”, enfim, se dissipa. Observando sua fase inicial, o próprio Bandeira escreve: “Os três primeiros livros ainda estão contaminados pela lucidez”. Refere-se a A cinza das horas, Carnaval e O ritmo dissoluto, livros que, segundo ele, “ainda estão cheios de poemas que foram fabricados en toute lucidité”. A claridade é, aqui, sua grande inimiga. Só quando afrouxa os grilhões da razão com o vento da poesia livre, realiza, enfim, o sonho antigo não se tornar um “grande poeta” — manto que pesa e sufoca —, mas sim e apenas um “poeta menor”. Um poeta que conhece e celebra seu próprio tamanho. Um poeta que, enfim, cabe dentro de si.

É importante a ideia do “poeta menor”. Ela ajuda a desenhar os limites de um destino. Diz: “Tomei consciência de que era um poeta menor, que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações generosas”. Conclui Bandeira, então, que “o metal precioso eu teria que sacá-lo a duras penas, ou melhor, a duras esperas, do pobre minério das minhas pequenas dores e ainda menores alegrias”. Em vez do esforço intelectual, ele defende a submissão à espera. Espera de quê? Daqueles momentos em que o singular irrompe, em que as expectativas se quebram e a poesia se impõe não como uma maquinação, mas como um destino.

Passa Bandeira a procurar aqueles estados e sentimentos onde há “carga de poesia”. A poesia não é uma construção, mas algo em potência que o poeta, como um caçador assombrado, deve capturar — se for poeta mesmo. E nada mais. Importante recordar hoje, em pleno século 21, essas meditações de Manuel Bandeira. Elas ampliam não apenas o espaço da poesia, mas da própria liberdade.

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