Dom Casmurro

outubro 2017 / Dom Casmurro / A alegria

Texto publicado na edição #210

A alegria

Conto inédito do livro "A cidade dorme"

> Por LUIZ RUFFATO

Ilustração: Dê Almeida

Ilustração: Dê Almeida

V.
Os pés magoados pelos pedregulhos pontiagudos que infestavam a estrada, subi devagar a ladeira, caminho de terra batida cortado por sinuosas valetas esculpidas por contínuas enxurradas. Luzes pálidas como vagalumes escorriam das janelas cerradas. Ao alcançar a rua coberta por paralelepípedos avistei à esquerda a praça da Matriz onde dois soldados, aproveitando o resto de claridade sentados num banco de cimento, ofereciam pipoca a um mico-estrela mais ousado que avizinhara-se observado por vários pares de olhos bisbilhoteiros camuflados entre as folhas. Acercando-me, cumprimentei-os, espantando o macaquinho que em segundos desapareceu por entre os galhos dos oitis. Os soldados ergueram-se, aborrecidos, e vieram morosos ao meu encontro. O mais velho, gordo e apoplético, disse, entediado, Estávamos à sua espera, enquanto o outro, baixo e musculoso, aproximou-se, desferindo-me um soco no estômago vazio que me fez dobrar de dor. Em seguida, jogou-me no chão e, segurando com força os braços às costas, imobilizou-me os punhos com um par de algemas. Na queda, esfolei os joelhos, lanhei o lado direito do rosto e o ombro. As feridas disseminadas por meu corpo latejavam agora como uma latomia de sapos. Ambos ajudaram-me a levantar, e empurrando-me o mais velho falou, O doutor Lindolfo vai gostar de conhecer o forasteiro ladrão de camisa. O outro pegou o apito dependurado no pescoço e soprou com força. Logo as calçadas, até há pouco vazias, encheram-se de vultos, que perfilados mantinham os olhos rastejando no chão, o silêncio só incomodado pelo vento que acariciava a copa das árvores. O mais velho, como que enfadado pelo ritual tantas vezes repetido, seguia alheio, pensando talvez no coturno que lhe atazanava os dedos, mas o uniforme do soldado baixo e musculoso marchava orgulhoso, mirando com arrogância os rostos intimidados. A cada quarteirão, soprava o apito e o silvo agudo ameaçava trincar a noite que adensava. Após uns quinze minutos, em que desfilamos lentamente por entre o medo, a compaixão e a curiosidade, paramos em frente a uma casa grande e antiga, fachada amarela, portas e janelas azuis, a tintura desbotada, tufos de mato crescendo no telhado, bolor emanando do respiradouro gradeado do porão. Galgamos os cinco degraus da escada e penetramos no assoalho empoeirado de uma sala atulhada de armários atulhados de pastas atulhadas de papéis, na parede lado a lado um enorme crucifixo em madeira escura e o retrato do Presidente da República. Atrás da mesa, em cujo tampo pousavam uma caneca de louça crivada de lápis e canetas, um cinzeiro abarrotado de bitucas e uma máquina de escrever, um homem meio calvo, franzino e lívido, óculos grossos, gravata verde-musgo esganando a camisa de tergal branca, monograma R.L. em preto no bolso, fumava, sorumbático. É esse?, perguntou, com desprezo, a voz anasalada. O soldado mais velho arrastou uma cadeira e o outro, impelindo meu corpo, obrigou-me a sentar. Alguma prova de identidade, indagou, e ambos negaram, balançando a cabeça. O doutor Lindolfo não vai gostar nada nada disso, comentou, enfatizando o “nada nada”. Abriu com dificuldade a gaveta emperrada, selecionou duas folhas timbradas e papel-carbono, ordenou-as, colocou na máquina. Datilografava algumas sentenças quando o interrompeu o soldado baixo e musculoso, Por que não perguntamos a ele? O escrivão encarou cúmplice o mais velho e redarguiu, com deboche, Você acreditaria em alguma palavra dita por esse sujeito? Percebendo a falha, o soldado tratou de afastar-se, desconcertado. Dirigiu-se a um aparador, encheu uma caneca com água da talha, engoliu-a, balançou a garrafa térmica, concluiu que estava vazia, e manteve-se à parte, humilhado. Os dedos do escrivão voltaram a bailar ágeis impulsionando as teclas e o som seco e metálico apoderou do cômodo iluminado por uma fraca lâmpada de quarenta velas. Por fim, retirou o documento da máquina, separou o papel-carbono, leu-o com satisfação, pegou uma caneta, marcou um xis em ambas as páginas, e exibindo-as disse, Assine aqui e aqui. O mais velho libertou-me das algemas, mas R.L., ao notar meu rosto descorado, mandou o outro soldado levar-me antes ao lavatório. A água fria escorreu sifão abaixo, enxuguei-me numa toalha felpuda, cheirando a morrinha, e regressei trêmulo à mesa. Rabisquei o lugar demarcado no original e na cópia, o escrivão tomou os papéis e enfiou-os num envelope pardo timbrado. Agora, tire a camisa, ordenou. Desabotoei-a com cuidado e entreguei a ele, que enojado meteu-a num saco plástico e falou para o mais velho, Coloque tudo em cima da escrivaninha do doutor Lindolfo. Rangendo a madeira, as botas desapareceram por uma porta lateral. Enquanto isso, R.L., dando por terminada sua função, trancou à chave as gavetas da mesa, vestiu o paletó preto nevoado de caspa e esvaziou o cinzeiro no cesto de lixo. Meteu uma gorda pasta de plástico vermelha debaixo do sovaco e disse, Até amanhã. O soldado mais velho retornou e assinalou para o companheiro que, com impaciência, empurrou-me em direção à porta lateral oposta à da sala do delegado. Descemos uma escada estreita e penetramos no porão, uma grande cela à direita, que na semiobscuridade afigurou-se-me vazia; duas pequenas, à esquerda, ocupadas; e uma menor, ao fundo, para a qual fui conduzido, aos chutes e socos. Uma tosse acatarrada, longa e agônica, seguida de persistentes gemidos, empesteava a galeria úmida. Sem pressa, o soldado baixo e musculoso deixou o lugar, banhado pela fraca luz do poste da rua que infiltrava pelo respiradouro gradeado no alto da parede. Uma voz jovem e debochada esgarçou o silêncio, Bem-vindo, colega! Aos poucos, meus olhos, acostumando à claridade macilenta, distinguiram no compartimento contíguo, separado por um vão de uns dois metros que me pareceu hospedar o chuveiro, duas sombras inquietas: um rosto imberbe, mal saído da adolescência, pintado de maneira extravagante; uma cara redonda encimando um corpo enorme, ralos cabelos louros, a brasa do cigarro farolando nas trevas. De novo, a tosse acatarrada, longa e agônica, seguida de persistentes gemidos que, reparei, provinham do cubículo situado na parte mais noturna do corredor. Aquele sujeito está doente, observei. Ele está morrendo, o gordo falou, com desdém. Ele está morrendo há cinco anos, emendou. Ele enlouquece a gente, o jovem encadeou, exasperado, Tempo todo aí, lamuriando… Voltei-me para o espaço assimétrico que me destinaram, contei, os pés enregelados, sete passos de frente, nove de fundos. Estendido na laje lisa de cimento, sobre um estrado de madeira, o colchão de capim revestido por um lençol amarelado fazia as vezes da cama. Na cabeceira, mal dobrado, o cobertor sebento, nenhum travesseiro. No canto, um buraco fétido, o banheiro. Apesar do desconforto, do mau cheiro, das pulgas, do pulsar das escoriações e principalmente da fome deitei, afrouxei o cós da calça, estiquei o cobertor sobre o corpo arrepiado pelo frio que se insinuava no sopé da noite e tentei dormir. A tosse acatarrada, longa e agônica, convulsionava o corpo do homem que, insalubre, gemia, gemia, gemia. Na cela ao lado, cochichos, suspiros, ruídos. Em algum lugar, um gato miava. Um bêbado passou resmungando coisas ininteligíveis, e as queixas persistiram até sua voz transformar-se num fio abstrato. Um cachorro derrubou a lata de lixo, fuçou-a, retomou sua rota. Meus olhos fecharam-se lentamente, confusas imagens, urubus planando contra um céu de grossas nuvens brancas, um burro apodrecendo no leito seco de um riacho, crianças brincando sozinhas numa casa em ruínas… Ouço minha mãe varrendo o quintal… Eu despertava com o sussurro da piaçava raspando a aspereza do chão e evocava seus cabelos castanho-claros amanhados no lenço estampado, o vestido de florzinhas, o chinelo de dedo, o sorriso tímido. Satisfeito como um animal refestelado em sua toca, cerrava os olhos, tornava a madornar. Vislumbrei sua silhueta esbelta envolta na luz desbotada da manhã e acordei com o ramalhar da vassoura lá fora removendo do passeio os últimos vestígios da madrugada. O bálsamo da escuridão sossegara o peito do detento de tosse acatarrada. No cubículo vizinho, o jovem ressonava confinado aos braços nus do gordo. Ainda atônito, desgarrei das mãos de meu pai na saída do circo, cuja lona cheia de rasgões recobria o palco minúsculo e a arquibancada de tábuas carcomidas, e avancei hesitante pelo labirinto de trailers, calcando a palha úmida que forrava o chão. O domingo afundava num pântano soturno. De repente, deparei com uma jaula, os olhos amarelos do enorme tigre, única atração daquele espetáculo mambembe, encontraram os meus, fascinados. Como uma sombra aproximou-se da grade, o rabo hirto, desfilando majestoso a pelagem raiada. Eu podia sentir seu arfar em meu rosto. O corpo frágil ameaçava desabar, insustentado pelas pernas bambas. Perscrutamo-nos. Examinamo-nos. Memorizamo-nos. Então, alguém surgiu e arrebatando-me assustou o animal que, exibindo os dentes pontiagudos, recolheu-se rugindo ao fundo da gaiola. O soldado mais velho depositou no piso em frente a cada uma das celas um pão com margarina que retirava com a mão peluda de um saco de papel manchado de gordura. Em seguida, o soldado baixo e musculoso surgiu e com uma garrafa térmica encheu as canecas de plástico de café com leite, morno e aguado. Enfiei meu braço direito por entre as grades e pincei meu desjejum. Tão logo os soldados afastaram-se escada acima, o jovem imberbe, trajando roupas femininas, empurrou a porta do cubículo e dirigiu-se sorrateiro ao fim do corredor. Vigiando o interior da cela que pensava despovoada, abaixou-se, recolheu a ração e voltou a passos largos, exultante, repassando-a ao gordo que o esperava impaciente ancorado na cama, derramando-se da camiseta-regata. Depois, percorrendo a mesma trajetória, recolheu também o café da manhã do detento de tosse acatarrada. Eles não precisam, justificou. Dei de ombros, mastigando com avidez o pão murcho. Um está agonizando, o outro, desaparecendo, o gordo falou, soprando a fumaça do cigarro. O jovem imberbe, o rosto pintado de forma extravagante, acompanhou, com olhos pidonhos, o companheiro devorar três pães e meio e engolir sôfrego as quatro canecas de café com leite. Somente após terminar, ele pôs-se a roer o meio pão que sobrara, Estou de regime, comentou, pesaroso. Forcejei a porta do cubículo, as juntas enferrujadas estralaram, e sem muita dificuldade a entreabri. Caminhei devagar, observado com desconfiança pelo gordo e pelo jovem imberbe. Parei em frente ao lugar ocupado pelo homem que tossia. O corpo magro, ossos estufando a pele, mantinha-se voltado contra a parede suada. Náufraga, a boca bombeava golfos de ar para os pulmões estragados que restituíam compridos gemidos cavernosos. Sorrateiro, o jovem imberbe acercou-se. Montes de mortes nas costas, falou, apontando o doente. E acabar assim, suspirou, desconsolado. Criou sete filhos com a mira da espingarda. Virei-me para a cela grande que, embora parecesse vazia, adivinhava haver alguém. Este está desaparecendo, explicou. Quando chegou, uns seis meses atrás, era uma coisiquinha assim — e mostrou a altura do quadril. De uns tempos para cá vem ficando invisível. Agora, a gente só consegue enxergar ele em algumas horas do dia, dependendo da luminosidade. Uns onze anos tem, continuou, Pegou o irmãozinho menor, amarrou uma corda-bacalhau no pescoço, pendurou no galho de uma mangueira… Quase matou o coitadinho… De outra feita, imobilizou um garrote na árvore, as patas, a cabeça, e com o canivete descourou o bicho vivo! E estendendo a mão de unhas longas e maltratadas, grosseiramente cobertas por uma camada fina de esmalte vermelho, apresentou-se, Paola, muito prazer. E seguindo-me de regresso à cela sussurrou, O Tõe não consegue andar mais… O peso, sabe… Deitei na cama. O bolor do teto formava estranhos desenhos, um dragão talvez, uma baleia soprando água pelo buraco respiratório, dois guerreiros agarrados em combate… Ou nada disso… Apenas riscos aleatórios, sem sentido. Madornei, embora o estômago clamasse por uma refeição decente. Às onze horas, despertei assustado com o soldado baixo e musculoso estalando o cassetete nas grades, Almoço!, enquanto uma mulher, baixa e musculosa, mesma tez, compleição e traços, provavelmente sua irmã, distribuía a marmita de papel-alumínio com arroz, feijão, ovo frito e um pedaço de pelanca. E hoje?, o doutor Lindolfo vem?, o enfermo perguntou, em meio a um acesso de tosse. Com certeza, seu Nazário, com certeza, o soldado respondeu, subindo as escadas acompanhado pela mulher baixa e musculosa. Peguei o garfo de plástico e cavouquei a comida. Então, devagar, Paola abriu a cela, esgueirou até o fim do corredor. Seu Nazário disse, com dificuldade, Ele vem hoje, Paulinho! E Paola, irritado, gritou, Vem nada, estúpido! Ele nunca veio… Tomou a vasilha destinada ao menino invisível e entregou-a a Tõe, que acabava de devorar a parte dele e a de Paola, deixando-o apenas um pedaço de carne, que enfiou rápido na boca, O regime, sabe… Após esvaziar a última marmita, Tõe engoliu dois copos de água, arrotou satisfeito, e convidou-me para uma partida de dama. Disputamos vários daqueles monótonos embates, enquanto Paola, resignado, limpava as dobras adiposas do tronco do companheiro com uma toalha de rosto encardida. Uma hora mais, enfastiado, Tõe espantou Paola com um safanão, arremetendo o tabuleiro contra as grades. Em silêncio, o jovem imberbe catou uma a uma as peças espalhadas, enquanto o gordo resgatava um maço de cartas escondido sob o colchão, Vamos jogar pôquer agora. A valer. Quanto você pode apostar? Respondi que não trazia nada comigo. Ele riu, mostrando os dentes enegrecidos pelo fumo, e falou, Se você ganhar, a Paola é sua. Se perder, você vai ser minha mulher. Encarei seus olhos lúbricos. Depois, mirei Paola que, segurando um minúsculo cortador de unha, fingia cuidar dos pés. Melhor de três, impôs. Ele manuseou ágil o baralho imundo e distribuiu os naipes. Venceu a primeira e em seus lábios desabrochou uma pequena flor de escárnio. Ganhei a segunda, mas Paola comentou, com deboche, É só para atear esperança… No entanto, venci a terceira mão. Enfurecido, Tõe tentou me atracar, mas levantando ligeiro me desvencilhei, saí e fechei a porta. Protegido pelo imenso talhe do companheiro, Paola gargalhava. Deitei novamente. Os músculos doloridos, latejavam as feridas, hematomas magoavam minha pele. Da cela vizinha vinham o cheiro de cigarro e o burburinho de risos e frases abafadas. Comprida e agônica, a tosse acatarrada abraçava a galeria. Pelo respiradouro ruídos inundavam a tarde estática, passos, fiapos de conversas, pregões incompreensíveis. Pesadas, as pálpebras estreitavam-se, por mais que lutasse para conservar-me alerta. De repente, um barulho rebentou, assustando-me, e como uma bola de soprar que houvesse soltado das mãos de uma criança, minha sombra escapou, grudando ao teto. Observei os dois soldados descerem as escadas e avançarem resolutos em minha direção. Agitados, apanharam meu corpo inerte e arrastaram corredor afora. Detiveram-se, então, em frente à cela de seu Nazário que, num esforço incomum, aguardava de pé, amparado por Paola. Com sacrifício, o doente ajoelhou-se e zombeteiro escarrou em minha boca. Em seguida, o jovem imberbe levantou o vestido, baixou a calcinha e soltou um longo jato de urina em minha cabeça. O soldado mais velho tomou meus braços, o mais baixo as minhas pernas, galgaram com dificuldade as escadas. Ensimesmados, Paola e seu Nazário regressaram às celas, enquanto a poça malcheirosa espalhava-se sorrateira pela laje fria. Foi quando vislumbrei, por segundos, o menino, franzino e enfezado, o rosto satanicamente angelical envolto no halo da luz vespertina.

NOTA
O conto A alegria é uma das histórias do livro A cidade dorme, a ser publicado em março de 2018 pela Companhia das Letras.

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