A alma dos esquecidos

Repletos de um lirismo forte e urgente, os contos de Itamar Vieira Junior têm raízes fincadas no solo
Itamar Vieira Junior, autor de “A oração do carrasco”
26/05/2018

Itamar Vieira Júnior não escreve bem por acaso. Alguns de seus contos, reunidos em A oração do carrasco, trazem a marca de um lirismo forte e urgente, daqueles que arrastam o tapete sob os pés, tira do conforto as retinas que já não se incomodam com o assombro; olha o que os homens fizeram da sua humanidade, parece dizer. Fala com a voz daqueles que, ao encalço de sua personagem, Alma, do conto de mesmo nome, nunca andam na estrada, mas na beirada dos matos, cortando a pele nos espinhos. Multidão silenciosa. Mas por que mesmo que Itamar Vieira Júnior não escreve bem por acaso? Porque seu texto não mora no espaço do ar, de onde tira uma inspiração etérea ou simplesmente poética. Seu texto tem raízes fincadas no solo — literalmente.

Há muitos anos, ele pesquisa histórias de comunidades negras rurais. Foi escavando esta terra que encontrou os registros da vida de uma mulher que lhe serviu de modelo para Alma, escravizada por anos. Para fugir, ela caminhou de Salvador até o sertão baiano por não menos que 400 quilômetros. A Alma real tornou-se matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por mais de dois séculos.

A história da Alma verdadeira termina aí. Não se sabe de mais nada a respeito dela. A literatura de Itamar parte deste ponto cego para enxertar vida e palavra pulsante a uma biografia esquecida e incompleta. O resultado é o conto mais bonito do livro. A opção pelo fluxo da consciência, técnica bem difícil nas mãos de um desastrado, faz da narrativa em primeira pessoa uma força vital para sustentar um relato que nasceu do discurso da oralidade:

 (…) uma vez de muita fome comi cupins de uma árvore oca, como um tamanduá, uma árvore podre e toda comida por dentro, eu fui entrando no oco com minha mão ferida, com um pedaço de galho em minhas mãos, aguardava quieta ouvindo a minha própria respiração, depois tirava aquele galho seco cheio de cupins, matava os que conseguia antes de colocar na boca, porque a fome era grande, eu bebia água empoçada em qualquer chão, porque às vezes os rios estavam secos, ou iam para muito longe de onde o sol me levava, e quando havia qualquer chuva, mesmo que fosse pouquinha, eu saía do mato para a estrada e não temia que me encontrassem, ficava de boca aberta, lavando minhas feridas, essa vida era assim, mas a de antes era muito pior, eu não tinha medo da outra vida, tudo o que eu tinha e era meu me tiraram, meus filhos, meu leite para amamentar as crianças brancas dos senhores (…)

O conto tem uma cadência repetitiva que em uma primeira leitura pode parecer errada — será mesmo que o autor não percebeu que repetia situações, palavras e gestos desta mulher solta, perdida entre amanheceres e escuridões, entre a aflição e o medo, carregando nas costas os séculos de humilhação e perdas? Claro que sim.

A ideia, parece, é repisar propositadamente o assombro para denunciar o incômodo. O fluxo desta consciência que perdeu tudo, menos a desgraçada memória dos abusos, precisa ser repetido à exaustão para que se perceba os estragos que o processo civilizatório não cicatrizou. Pelo contrário, em pleno século 21 a sociedade ainda é capaz de produzir escravidão.

Singeleza melancólica
Outro conto igualmente arrebatador — desconfia-se de que Itamar acenda uma vela para Clarice Lispector — é o Meu mar (Fé), que poderia ter outro título para traduzir melhor a beleza do texto. A primeira frase, de uma singeleza melancólica, dá o tom de todo o conto e arrasta o leitor pela mão até a descoberta final: “Todos os dias eu retorno à praia para tentar encontrar você”.

A mulher está à espera do homem — ela conseguiu fazer a travessia dolorosa até a praia; ele se perdeu no mar depois de meses de incerteza no navio. A narrativa corre na ondulação da voz da mulher que tenta sobreviver à solidão da ausência: encontrará novamente seu amor? Estarão ambos vivos um diante do outro algum dia?

Antes do levantar do sol, seguia para a praia, segurava o cotovelo direito com a mão esquerda, mirava o horizonte olhando as embarcações, esperando você descer de alguma delas. Em alguns dias de mais ousadia me aproximava como que em revista, olhando para os rostos dos homens tentando encontrar você. Mas o tempo passava e você não chegava.

A expectativa do encontro é tão emocionante quanto os momentos finais:

Você agita seus braços como naqueles fins de tarde em Dakar. Seu sorriso contrasta com meus olhos marejados de lágrimas, porque eu mesma havia me tornado o oceano que nos separa. Você se aproxima de mim e quero muito tocá-lo, mas tenho mágoa por sua ausência tão prolongada, me sinto enganada e traída.

Novamente vale aqui a ideia de que a história não está enterrada em um passado distante, mas se repete assustadoramente, pois vale lembrar que o mundo continua produzindo refugiados, imigrantes que tentam atravessar mares, fronteiras e desertos na expectativa de uma vida melhor, distantes de seus lares e parentes.

A floresta do adeus completa a seleção dos três melhores contos do livro. A voz feminina está declinada no plural para falar das mulheres que nascem para servir. O texto vem como se fosse o brado de um mutirão.

Somos as mulheres que lavaram as pesadas cortinas da igreja para que a casa de Deus estivesse sempre impecável, que fizeram orações para os ricos e os pobres, sem que ninguém se desse conta de que, para que aquelas cortinas estivessem tão alvas refletindo a luz, mulheres precisaram dar seu tempo de vida, enrugaram suas mãos, ressecaram-nas com sabão, queimaram-nas com ferro e o braseiro, e, mesmo assim, não éramos lembradas nos dias especiais quando as boas famílias recebiam cumprimentos do sacerdote (…)

Ninguém consegue esta riqueza de texto literário sem que se conheça minimamente a realidade da qual se fala. Essa pesquisa de base, que sobressai com evidência, revela a presença de um autor que leva para a literatura contemporânea questões históricas imprescindíveis, sem o lastro cansativo do texto canônico. O lirismo que Itamar propõe é contemporâneo, desconcertante e ágil. Reitera a falência da ideia antiga do gênero no sentido de que homens escrevem como homens e mulheres como mulheres. As vozes que proclamam estas “orações” são as das mulheres lascadas pelos séculos e séculos, mas é também o eco abafado e sofrido de todos aqueles que foram — e ainda permanecem — esquecidos em si mesmos.

A sua urgência é a de quem precisa lavar a “alma”.

A oração do carrasco
Itamar Vieira Junior
Mondrongo
164 págs.
Itamar Vieira Júnior
Nasceu em Salvador (BA), em 1979. É doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Autor do romance Paraíso (2008), do livro de contos Dias (2012). O conto Kursk foi traduzido para o francês e publicado no site da revista de literatura L’Ampoule, das Éditions de L’Abat-Jour, França. A oração do carrasco é seu segundo livro de contos.
Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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