Kenneth Goldsmith: clarividência ou mistificação?

Quem é Kenneth Goldsmith?
Ilustração: Dê Almeida
27/01/2018

Façamos de conta que o campo literário é o Jardim do Éden. Nesse vasto local sagrado, podemos andar e explorar à vontade. Podemos realizar experiências, a fim de atingir todo o nosso potencial criativo. Afinal foi pra isso que o jardim e os humanos foram concebidos. Mas há um limite: a árvore do conhecimento. Uma força todo-poderosa avisou: o fruto milagroso dessa árvore jamais deverá ser tocado. Em nossa analogia com o campo literário, o fruto proibido da árvore do conhecimento é o plágio.

Esse exercício de imaginação me ocorreu ao ler um manifesto do poeta Kenneth Goldsmith, publicado na revista Grampo Canoa número 2.

Foi uma experiência muito gratificante, muito prazerosa, ler um provocativo manifesto contemporâneo. Esse gênero de expressão teórica, tão combativo, andava meio fora de moda, mas parece que está voltando com força total.

As toupeiras continuam repetindo que declarações públicas de princípios são hoje anacronismos. Que só faziam sentido na época das vanguardas e das utopias políticas, artísticas e literárias. Mas a realidade está mostrando outra realidade.

O título do manifesto de Kenneth Goldsmith é, sozinho, um manifesto inteiro: Só presto atenção na teoria quando vejo que alguém dedicou toda a sua vida a uma questão para a qual nunca dei muita bola.

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Anote na agenda: Manifesto também é o título do excelente filme-performance de Julian Rosefeldt, estrelado por Cate Blanchett e lançado em 2015.

Sinopse da distribuidora: “Os históricos manifestos de arte podem ser aplicados à sociedade contemporânea? É isso o que Cate Blanchett tenta responder ao explorar os componentes performáticos e o significado político de declarações artísticas inovadoras do século 20, que vão dos futuristas e dadaístas à Pop Art, passando por Fluxus, Lars von Trier e Jim Jarmusch. Filme-experimento, com pitadas de videoarte, em que Cate Blanchett interpreta treze personagens intensos”.

Palavra de ordem: “A arte requer verdade, não sinceridade” (Kazimir Malevich).

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Quem é Kenneth Goldsmith?

Por que seu poema The body of Michael Brown provocou tamanha controvérsia?

O que é a escrita não criativa?

Você já leu O êxtase da influência: um plágio, de Jonathan Lethem?

E a noção de gênio não original, de Marjorie Perloff, o que é?

Por que Kenneth Goldsmith não está cumprindo pena numa prisão federal?

Como é possível coordenar um curso de escrita não criativa — promover a cópia, a pirataria, a apropriação e o plágio — justamente onde esses procedimentos são mais combatidos: a universidade?

Uma poética da apropriação, isso é possível?

O que diz o nosso glorioso Código penal?

Por que não temos cursos de escrita não criativa em nossas universidades?

A sociedade brasileira já está suficientemente amadurecida pra descriminalizar o aborto, a maconha e o plágio criativo?

Que diabos é o famigerado patch writing?

Saltando de texto em texto na web, passando de uma entrevista para um depoimento, uma resenha, uma reportagem, outra entrevista, outro depoimento, outra resenha, outra reportagem, começo a perceber que a concepção de Kenneth Goldsmith de plágio não é exatamente plágio.

Ao menos, não o plágio realmente hardcore, transgressor, que dá processo, multa pesada, talvez cadeia… Como acontecia com a pornografia na arte e na literatura, tempos atrás, ou com as relações homoeróticas. Como ainda acontece com a maconha e o aborto.

A concepção de Kenneth Goldsmith de plágio parece algo mais cuidadoso, cheio de sutilezas. Não se trata de sair combatendo — na prática — a propriedade intelectual. Não se trata de sair rapinando aleatoriamente textos alheios protegidos pela lei. Segundo o poeta-professor, é preciso muito critério e habilidade.

(Pegar o fruto proibido, mas não morder…)

Seria o precavido Kenneth Goldsmith um plagiário pela metade?

Um transgressor com cinto de castidade?

Seria sua utopia um sistema poético bastante atrevido, mas ainda submisso ao sistema político-econômico-jurídico?

Dúvidas… Dúvidas? Dúvidas!

Só conseguirei responder a essas questões depois de mergulhar um pouco mais fundo no trabalho e na história do poeta-professor.

Por agora, convido vocês a apreciar essa pequena seleção de breves considerações sobre o plágio, espalhadas em seu manifesto em progresso, traduzido por Leonardo Gandolfi:

Uma notícia no China Daily fala de um jovem operário que copiou uma dúzia de romances, assinou seu nome neles e publicou tudo com o título: Minhas obras.

Bob Dylan sobre apropriação: os fracos e otários reclamam dela.

O plágio e o debate sobre direitos autorais representam no século 21 o que o atentado ao pudor representava no 20.

A crítica literária está entrelaçada demais com o texto jornalístico. Os autores de resenhas são jornalistas querendo ser críticos literários. Obcecados com as noções de fontes jornalísticas e de verdade, não é de se admirar que a noção corrente do que seja o plágio na era digital esteja tão emperrada.

Ser bom o suficiente para ser pirateado é um coroamento. A maioria dos artistas quer, primeiro, ser amada; só depois desejam fazer história; dinheiro é um distante terceiro lugar.

A informação é como um banco. Nosso trabalho é roubar esse banco.

Nossos textos são agora idênticos aos textos que já existem. A única coisa que fazemos é reivindicá-los como nossos. Com esse mero gesto, eles se tornam completamente diferentes dos originais.

Sou um escritor idiota, talvez um dos mais idiotas que já existiram. Sempre que tenho uma ideia, questiono se ela é suficientemente idiota. Pergunto a mim mesmo se talvez isso não possa ser considerado, de alguma forma, inteligente? Se a resposta for não, então prossigo. Não escrevo nada de novo nem original. Copio textos pré-existentes e levo a informação de um lugar para outro.

Infelizmente a escrita criativa está muito viva, mas estou fazendo o que posso para acabar com ela.

Atuar é plágio.

Geralmente quando esse tipo de coisa acontece o que se vê é um James Frey — aparecendo e pedindo desculpas dizendo que está envergonhado e tal. LaBeouf plagiou e, ao invés de pedir desculpas, resolveu explorar e usar, em seu próprio benefício, as várias estratégias de liberdade de expressão desenvolvidas ao longo de mais de cem anos.

Se eu criasse meus filhos da mesma forma que escrevo meus livros, já estaria preso há muito tempo.

Num tempo em que os materiais culturais estão disponíveis em abundância na internet, não há como voltar atrás: apropriação e plágio chegaram para ficar, mas é nosso dever fazê-los de forma inteligente.

Parece que não acreditamos no copyright nem nos importamos com sua existência. 

Conselho de W. G. Sebald a estudantes de escrita criativa: só posso incentivá-los a roubar à vontade. Ninguém vai perceber.

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Vocês podem conferir a íntegra do manifesto baixando o pdf da revista Grampo Canoa número 2, no portal da Luna Parque Edições (www.lunaparque.com.br).

Este artigo continua e completa o artigo Paródia, pastiche, plágio etc., publicado nos números 182 e 183 do Rascunho.

Nelson de Oliveira

É ficcionista e crítico literário. É autor de Poeira: demônios e maldições e Ódio sustenido, entre outros.

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