O homem de barro

Conto inédito de Krishna Monteiro
Ilustração: FP Rodrigues
30/11/2017

Construíram o homem de barro à imagem e semelhança de seus corpos. De um, tomaram o molde da mão direita, a mais hábil da aldeia na escrita de histórias, na codificação de leis. De outro — um velho ourives — aproveitaram a esquerda, famosa por encaixar, polir. Dos pés do lavrador ergueram pés do homem de barro. As pernas foram cópia exata das que, anos atrás, haviam corrido, retornado dias depois, sentando-se num tronco pedindo água e anunciando: há um vale adiante.

Utilizaram vários moldes. De carvalho, pedra, chumbo, ônix, ouro, lava, estanho — da própria terra. Eles os trouxeram até a praça, depositando-os lado a lado numa clareira de pó na grama. Ao longo daquela tarde e das seguintes, uniram as peças, costurando fios, soldas metálicas. Ou cordas, simplesmente. Pelo orifício deixado livre pouco acima dos olhos, verteram argila. Acordaram cedo para colhê-la no rio, nas margens onde havia sombra.

Quando despertou, o homem de barro viu em torno homens que o pintavam, além de achas queimadas, cinzas resfriando. Passou o dedo pela testa. Nela, em relevo, cinco crianças haviam acabado de gravar um nome. Ergueu a nuca: apoiou-se pela primeira vez nos cotovelos. Sentiu nos pés uma formigação estranha, olhou os pés. Viu que nas solas homens e mulheres aplicavam a última demão de tinta, antes de se levantarem, rodeando-o, paletas e pincéis líquidos de cores.

Disse a primeira palavra após meses, num momento de descanso de sua lida com o arado. Deteve-se de pé, observando juntas de bois seguirem desordenadas, sem braços que as guiassem. Olhou o sol. Olhou à volta. Olhou nuvens que se antepunham ao sol e das quais chovia algo de cuja existência ele se dava conta, agora, pela primeira vez. Agachou-se rumo à terra. Nela mergulhou as mãos. E erguendo-as diante daqueles que vieram correndo da aldeia e se ocupavam, aflitos, em recolher os bois, o homem disse: “Barro”, sem olhá-los. Quase como se para si falasse.

Desde esse dia não lhe foi mais exigido que trabalhasse campos, represasse águas, desviasse cursos de rios, aplainasse encostas de montanhas, deitasse abaixo florestas abrindo espaço para a aldeia, que crescia. Não. Contentavam-se em sentar ao seu redor, vendo-o nomear o mundo. O mundo conhecido, feito de palavras como

Raiz,
Colheita,
Fonte,
Cascos,
Asas,

e também outro, contido no eterno vir-a-ser, nos sem-limites de uma linguagem própria ao homem de barro, na poesia universal que mapeava reinos, suas chaves.

Correram anos. Ele viu sua plateia recurvar as costas. Sepultou muitos com as próprias mãos. Desejou sorte aos que partiram em busca de territórios que anunciou. Reconheceu vários nas feições dos descendentes que, um dia, retornaram em triunfo, detiveram-se na praça e entregaram rédeas a pajens solícitos, perguntando-lhes, entre um carinho e outro no pescoço de montarias que pateavam o calçamento: “Quem é aquele, entre as árvores?”. Livrando-se das amas, seus filhos correram até o homem.

Ele levantou-se, espanou as folhas em cada um dos lugares que costumavam ser ocupados, em círculo e por noites a fio, pelos que o ouviam. Indicou um dos pontos para as crianças. Mas viu-as recuar, refugiando-se nas pernas dos pais, que chegavam acompanhados pela criadagem e perfilaram uma meia-lua que não tardou a se fechar em cerco. Tentou falar-lhes. Teve como resposta apenas o silêncio de olhos; de mãos empunhando lanças. Apontou em direção ao rio, às árvores. Porém deu-se conta de que não havia mais como nomear leitos, que estavam secos. Que ruas e casas deitaram abaixo troncos e se alastravam, consumindo a planície e colinas. Teria dormido tanto tempo assim a ponto de não perceber? Os poucos galhos da praça roçavam uns nos outros. Riscavam sombras na criança que enfim tomou coragem, avançou: atirou a pedra. Pela segunda vez, o homem mergulhou as mãos, colheu a terra. Aplicou-a sobre o ferimento antes de partir.

Numa floresta ao Norte, o homem de barro acordou com um exército de amazonas retesando flechas, dizendo que corresse sem olhar para trás. Ao Sul, traficantes de escravas tentaram passar-lhe correntes. Tribos vândalas do Leste cercaram-no uma noite. Examinaram seu ventre contra uma fogueira: “É uma aberração que carrega o sexo do homem e da mulher”. Negro como os mouros, disseram os cruzados. Pálido como os invasores, sentenciaram os árabes. É púrpura, É claro como Água-Marinha, É da cor corrompida do dinheiro, É vermelho como os revolucionários.

Até que atingiu um porto onde vestes e peles surradas escalavam umas às outras na rampa do navio para o continente. De manto e capuz, o homem abriu passagem. Instalou-se entre os que conquistaram o castelo de proa, protegidos pela vela maior. Olhou para os lados: tentava decifrar falas e mímicas.

Levantaram âncora. Ao redor do barco, elevações se erguiam, vagavam em ondas. Deslocando o capuz para escutar, ouviu vozes quase em choro dizerem que a chuva é portadora de maus presságios; que mastros de um navio são árvores solitárias em campo aberto — atraem relâmpagos. Ergueu mais o capuz. Encontrou o olhar de uma criança, que cochichou para a mãe.

Ilustração: FP Rodrigues

Ao acordar na manhã seguinte, com um mal-estar no estômago que oscilava no mesmo ritmo do convés, descobriu-se nu, sem manto. Não demorou a perceber que um velho, de joelhos ao seu lado, mirava fixo para sua testa, repetindo as quatro letras gravadas de seu nome, enquanto inclinava em movimentos rítmicos o tronco para frente, para trás, e às costas dele outros passageiros colhiam aquelas sílabas, entregando-as nos ouvidos dos que se acomodavam próximos à amurada e que por sua vez as repetiam, lançando-as no mar. O convés se debatia cada vez menos. O homem de barro pôs-se de pé. Viu dissipar e partir para longe aquela trama de raios até há pouco acima deles. Devolveram-lhe o manto. De cabeças baixas, falavam sobre o dom de certos nomes, que aplacam tempestades.

Desembarcaram, trouxeram-lhe uma montaria, cantando numa língua que parecia inventada só para ele. Às margens da estrada, elevaram com as mãos um túnel de flores, enquanto um menino puxava a brida e conduzia o homem — os pés fora dos estribos, quase roçando o chão de terra — pelo interior de braços e cânticos multiplicando-se do cais até portões da cidade, que se abriram às pressas, alertem as sentinelas, e através da alameda reta e ampla na qual aqueles que o acompanharam no navio formavam, à frente e ao redor, a guarda de escolhidos. Desmontou diante de uma escadaria. Viu soldados baixarem lanças, ajoelharem. Sentiu desadormecerem as pernas enquanto escalava o percurso que o conduziu a um salão cujo teto flutuava além da vista, depois por corredores e outros degraus até o jardim no topo, com fontes e estátuas. Sentou no assento que lhe indicaram. Fechou os olhos, quase dormindo com o descanso da brisa que ia e vinha.

Mas ao abrir os olhos e tentar nomear o mundo podia divisar agora, no interior daqueles que se punham de joelhos, algo se dissolvendo lentamente, sem sobressaltos; cada vez mais fino sob ação do ciclo das estações que se alternavam no jardim; e ao girarem noite-dia-noite-anos elas colhem em suas mós de pedra algo que o homem finalmente percebe como atributo da espécie que o esculpiu: a memória. Só agora a enxerga, quase sopro, frágil em suas costuras e suportes, e quando tenta retê-la por meio de palavras mais enérgicas algo nele diz de nada valem estas frases e enredos, estes símbolos, personagens, pois a lembrança se esvai da multidão no mesmo ritmo em que corpos se põem de pé. Um murmúrio brota. Alguém toma uma pedra, olha para o desconhecido no trono à frente.

Distanciando-se dos portões da cidade, cruzando a planície, pensa que talvez a melhor maneira de domar esse desgosto seja olhá-lo correr de longe, como se na verdade não fosse seu. Tal qual o rio de que se aproxima. Deita à sombra de uma árvore. Mira folhas e galhos que o cobrem. Inveja sua paz e quietude, oscilando como se estivessem, ao mesmo tempo, dentro do mundo e fora dele. Planta a vista naquelas folhas, como num refúgio. Demora a perceber como elas pesam sob o baque de algo que as surpreende, faz curvar-se, e quando sente escorrer pelo peito e braços fios d’água ele no princípio não os reconhece, como se estivesse prestes a perguntar: “Qual é seu nome?”. Talvez tivessem vários, milhares como as folhas. Mas logo os chama, um a um. Fixa ainda mais o olhar no alto. Vê a totalidade feita de gotas e folhas. E ao curvar para a direita e esquerda a cabeça e examinar o solo que se encharca, vê que a terra, agora, cobriu-se de palavras. Que eram nítidas, com uma consistência fluida e maleável como o próprio barro. Tantas quanto grãos de terra dissolvidos. Eleva os dedos. Toca a própria testa. Com as unhas, raspa e apaga o relevo das quatro letras de seu nome. E após fazê-lo podia ouvi-las, palavras, fundindo-se aos poucos em liga e consistência de palavra única. Afunda as mãos no solo; a cabeça; tronco; pernas. Olha mais uma vez à volta: está crivado de raízes e sementes. Sente que patas e cascos o pisam, ao aproximar-se do rio para beber.

***

Talvez por isso, a terra, após ser colhida às margens onde há sombra, tem a impressão de que as feições do molde no qual a vertem possuem uma cintilação longínqua, familiar.

 

Krishna Monteiro

Nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas na Unicamp. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática, trabalhando atualmente na embaixada do Brasil na Índia. Em 2015, estreou na literatura os contos de O que não existe mais (Tordesilhas), finalista do Prêmio Jabuti e com tradução prevista para o francês e o romeno. O conto O homem de barro integra O mal de Lázaro, a ser publicado em 2018.

Rascunho