A tradução e o tempo

A corrosão do tempo é veneno certeiro para qualquer texto
01/06/2017

A temporalidade, que é o castigo do homem, é também o castigo daquilo que se apresenta como apanágio do humano, o texto. A corrosão do tempo é veneno certeiro para qualquer texto. A corrosão do tempo e do afastamento, que lentamente faz desaparecer sucessivas camadas de significado. No final, esgarçadas todas as camadas, resta o núcleo anassêmico — o indecifrável.

Entranha-se todo no texto o lento escorrer do tempo. Veneno certeiro, faz ver a morte ali no horizonte. Sua salvação, a salvação do texto, acaba sendo a tradução, aquilo que pode transportá-lo e conduzi-lo até a outra margem. É a tradução que faz o conhecimento e a literatura atravessarem o tempo e o espaço. É seu gesto de desespero, com o qual se apressam em apontar o futuro, que só chegará se houver alguém apto a lê-los e compreendê-los. Senão ficam como letra morta, representação enigmática e ideogramática de uma cultura esquecida.

O tempo é mesmo parte inseparável da escritura. Teria dito Derrida que Foucault teria dito que a escritura não resulta de mera inspiração que, num repente, domina o autor. Não. A escritura dependeria de sistemas institucionais de tempo e lugar. E o escritor tem pouco ou nenhum controle sobre esses sistemas. E o escritor, na verdade, tem pouca consciência desses sistemas. O tempo marca e conduz o autor, assim como marca e conduz o texto. Na virada de uma era, só a tradução ilumina a escritura.

Homem e escritura marcados pela temporalidade. O espírito humano, de um lado, dominado pelas imagens e pelas reivindicações do passado. A escritura, de outro, obcecada pelo futuro — pelo seu futuro, que se revela em cada nova leitura.

O texto precisa da leitura frequente. O espaçamento das leituras reduz sua compreensão. E o espaçamento não é nem o espaço nem o tempo, diria, novamente, Jacques Derrida. O espaçamento poderia ser as lacunas que se abrem entre as leituras e que abrem brechas na interpretação do texto. Novamente, ficamos com a redução da legibilidade e a exigência urgente da tradução.

Em seu Psicanálise e discurso, Patrick Mahony aponta que, para Freud, o ser humano seria uma série de “transcrições sucessivas”, as quais representariam “a realização psíquica de épocas sucessivas da vida”. Para realizar a sucessão, ou transcrição, o material psíquico precisaria de um ato tradutório, que operaria na fronteira entre duas épocas quaisquer. O mesmo raciocínio se pode aplicar ao texto, que depende do ato tradutório para continuar existindo como escritura legível, para evitar tornar-se obscura representação ideográfica.

O ato tradutório — que supera o tempo e faz a ponte entre as eras — não se consuma sem dor e sem perda. O preço talvez seja a própria identidade do texto como original. Algo que se esfuma, a originalidade, para salvar a escritura da dissolução e da corrosão do tempo. Em seu lugar fica o texto substituto, sua tradução. E nem evoquemos aqui a fidelidade ao original, que esse conceito desfalece face ao imperativo da sobrevivência. O primeiro animal a sacrificar, ante a urgência de persistir como texto interpretável, é o conceito estático de fidelidade. Nesse ponto a escritura é inequívoca. Há outras fidelidades a buscar, como diria Donaldo Schüler, e uma delas é aquela que se devota à poesia, ao tempo e à cultura do tradutor (o qual, não esqueçamos, é o próprio leitor).

O tradutor e o texto atravessam o tempo. Não com o ímpeto do nomadismo irresponsável, que não tece nem fia, que não armazena nem registra. Mas com a serenidade sedentária daquele que tem plena consciência de escrever para a posteridade.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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