Dom Casmurro

outubro 2017 / Dom Casmurro / 3 poemas

Texto publicado na edição #210

3 poemas

Três poemas de Ana Santos

> Por ANA SANTOS

Para morrer

Pôr um vestido
(florido),
um chapéu,
e ir à feira, sozinha,
comprar romãs.

Mastigar lentamente
a polpa rubra
sob um pé
de vento
(o chapéu tem de voar;
um pássaro tem de bicar
as sobras dos frutos).

Sujar os dedos
do que há
no coração das romãs.
Deitar na relva e esperar,
de mãos abertas,
a chegada de abelhas.

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Dádiva

Meu pai saía do mar.
Estava exausto de sol,
de braçadas. Agitava
os cabelos em gotículas.

Foi bom vê-lo assim, os olhos
piscosos, a carne e os ossos
em ação, recém-pousado
daquele voo às avessas.

Minha mágoa dissipou-se.
Mãos em concha, ele trazia
algo: branco, tão a salvo
do passado, o seu sorriso.

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Você e Gullar

Você é mais bonito que os brincos de pérola
da minha avó
Você é mais bonito que uma rosa
de papel crepom
cor-de-rosa
Você é mais bonito que um acrobata
que um cavalo-marinho
que uma nebulosa
Você é mais bonito que um laranjal
Você é mais bonito que um prato de sopa
mais bonito que uma xícara de chá
que uma cantiga
de ninar
mais bonito que uma pétala
seca
guardada num livro
que um ninho
de beija-flor

Olha,
você é tão bonito quanto um filme
mudo
e quase tão bonito
quanto um carrossel à noite.

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