Dom Casmurro

outubro 2018 / Dom Casmurro / Ana Miranda

Texto publicado na edição #222

Ana Miranda

Dois poemas de Ana Miranda

> Por Ana Miranda

Menino de jardim

Ele passeia por entre as plantas
regadas com seu trabalho
regador de flor criança
ele aprende cada palavra
menino-menina-sapato
folha-mamãe-luz-e-flor
entende, ouve, repete
e com suas descobertas
sua pequenez floresce
um centímetro por noite
a cada palavra a mais
Flor do cerrado

Para Nicolas Behr

Vochysia rufa qualquer
roupala brasiliensis
palavras de brinquedo
nas entrelinhas do chão
nas estradinhas do cedo
rodamoinho vermelho
carregada pelo avesso
voltando para o começo
bem cedo e sem medo
brinquedo memora nodosa
seja tarde, seja cedo
sem medo, mas bem cedo
no cerro, no vermelho
pubescens cor de palha
inflorescência do nervo

Sem medo do segundo
ou do terceiro mundo
um vulcãozinho indo
profundo, fundo, mimosa
fantasia flor nikelia
fimbriata cristalinae
siparuna cuyabana
no coração de húmus índia

Ainda, ainda, ainda
florindo numa bromélia
finda uma índia caindo
numa lua sem ter dívida
sem rediviva ideia
de fim, que foi sempre assim
indo florindo e ardendo
vermelha terra da erva
fulva, densa e sedosa

Polymorpha florida na taça
da ira, da fúria e ardor
do vício de uma altura
daquela palmeira mais rubra
noreantea adamantium
do passado meu carmim
nunca passado dali

Que a tarde seja cedo
e cedo seja o começo
e o dia seja cerrado
myrcia rubella ou torta
em si e por seu fim
sem fim e por seu campo
em flor, quase sem fim
momento que a vida corta
semente nascendo errado

(Como as pernas do Garrincha
e as árvores do cerrado)

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