Ensaios e Resenhas

fevereiro 2016 / Ensaios e Resenhas / Um par de óculos

Texto publicado na edição #189

Um par de óculos

Cláudio Portella rebate resenha ao seu livro sobre Cego Aderaldo

> Por CLÁUDIO PORTELLA

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Viajando de ônibus, num dia chuvoso, de Amontada, interior do Ceará, para a capital do Estado, Fortaleza, lendo a edição de dezembro de 2015 do Rascunho, deparo com uma resenha assinada por Marcos Alvito de meu livro Cego Aderaldo: A vasta visão de um cantador. Fiquei surpreso por não esperar mais resenha do livro publicado há dois anos. Surpresa maior foi ler tantos equívocos na resenha de Marcos.

Começa enumerando uma série de perguntas, que segundo ele, eu deveria ter respondido na biografia. Como se biografar fosse responder perguntas prévias. O que é justamente o contrário, biografar é levantar ainda mais perguntas.

A primeira das perguntas evidencia de cara um engano que comentei em outros textos. O resenhista começa com: “O que é literatura de cordel?”. Como se o Cordel fosse outra literatura que não a brasileira. O correto seria indagar: “O que é Cordel”. Respondo: É um gênero literário.

Mas minha função na biografia não é responder essa ou qualquer outra perguntar pré-estabelecida. Minha função é contar a vida de Cego Aderaldo de forma precisa e honesta, não deixando de fora os desdobramentos e as versões, e apontando o que de fato aconteceu.

Não escreveria este texto caso a resenha de Marcos Alvito não demonstrasse tão cheia de falhas na leitura do livro. Vamos a elas obedecendo ao que o resenhista escreveu:

“Segundo relata Cláudio Portella, em um sonho ele se viu cantando e descobriu o meio de ganhar a vida. Teria recebido um cavaquinho de uma amiga e aí iniciado sua carreira. Essa é a história que o próprio Aderaldo contou a seu biógrafo Eduardo Campos e parece poética demais para ser verdade, mas Cláudio Portella não assinala isso”.

No livro escrevo o seguinte: “Eduardo Campos, no livro Cantador, musa e viola, dá conta de que o primeiro instrumento do Cego foi uma rabequinha, dada por dois ou três amigos.”. Ou seja, com essa outra informação, desminto a primeira. Marcos não percebeu isso?

O resenhador continua: “Notem que Aderaldo se transforma em cantador assim, meio que por um toque de mágica, embora proveniente de uma tragédia. Não há nessa obra sobre ele, informações que nos permitam entender o processo através do qual ele aprendeu o ofício de cantador”.

Marcos, precisando de óculos, não leu o que escrevo na obra: “Passou a aranhar as cordas do cavaquinho e a cantar, como uma gralha, no terreiro de casa”. E também: “Mas o Cego sabia ser somente o início de um eterno aprendizado”.

Ora, quando informo que Cego Aderaldo passou a aranhar um instrumento musical e a cantar mal, informo que foi através do exercício autodidata, por esforço e repetição, que o Cego aprendeu a tocar e cantar. Completo a informação com: “Mas o Cego sabia ser somente o início de um eterno aprendizado”.

Alvito deixa entender que a famosa peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum aconteceu e que somente foi imortalizada por Firmino Teixeira do Amaral em cordel. Mas deixo claro na biografia que a peleja nunca aconteceu de verdade e que é pura criação de Firmino.

Escreve que transcrevo trechos da peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho, quando a peleja aparece na íntegra.

Cobra análise e contextualização histórica de versos da peleja do Cego com Pretinho. Desconhecendo que não se deve esperar de um biógrafo análises históricas, muito menos crítica. Cabe ao biógrafo apontar todas as vertentes dos fatos; se critica ou analisa está impingindo sua opinião a vida do biografado. Tomar partido é tarefa do leitor.

Ainda em relação aos versos da peleja em que sou cobrado a me manifestar, o resenhista escreve: “Muitos anos mais tarde, sintomaticamente na década de 1960, o Cego Aderaldo irá fazer versos se desculpando junto aos negros por esta caracterização de Zé Pretinho do Tucum. Cláudio Portella apenas registra isso, sem nenhum comentário, sem nenhuma análise”.

Devo repetir o que escrevi acima?

Fecha a resenha dizendo que minha biografia não está à altura da figura de Cego Aderaldo. Sei que toda biografia poderia ser sempre melhor, que, por melhor que seja, haverá lacunas. A pergunta é: por que Marcos Alvito tão insatisfeito com a minha, não trouxe em sua resenha uma única informação sobre o Cego que não fossem as que colhi na biografia? Sugestão: escreva uma que lhe agrade, boa fonte de pesquisa você tem em mãos.

>>> Leia resenha de Marcos Alvito.

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