Dom Casmurro

fevereiro 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Nora Bossong

Texto publicado na edição #189

Poemas de Nora Bossong

Nora Bossong nasceu em Bremen (Alemanha), em 1982

> Por Nora Bossong

A poeta alemã Nora Bossong

A poeta alemã Nora Bossong

Tradução:  Viviane de Santana Paulo

Besuch

Die alte Frau sitzt tagelang am Fenster
und hält ein Taschentuch, zu träg,
hinaus in eine Welt zu winken,
die sie nicht mehr betritt. Das Draußen
ist ein Fernsehbild. Wie es mir glückt,
von dort ihr Zimmer zu betreten,
bleibt ihr ein Rätsel,
sie fragt mich nicht danach,
sagt nur: Es gibt so vieles,
das ich nicht versteh,
ach Mädchen, weißt,
die Klügste bin ich eben nicht.

Und hinter ihrem Schatten klafft
die Wohnung,
die zu große Schale einer Muschel, vergraben
in dem Zeitschlick, der nicht mehr zur Stadt gehört.
Es begann damit, dass sie verzwergte
Jahr um Jahr, nicht mehr zu finden
Ihr mondäner Gang, ihr Blinzeln,
als brenne ihr verrauchte Luft
eines Kasinos in den Augen.
Vielleicht, sagt sie und irgendwann
und will nicht weg von ihrem Fenster,
sie ist so dünn geworden,
dass sie keinen Tag mehr spürt.
Ach Mädchen, sagt sie,
weißt, wir ham ja Zeit.

 

A visita

A velha costuma ficar sentada todos os dias à janela
E segura um lenço, muito lânguida
para acenar ao mundo afora
no qual ela não mais se aventura. Lá fora
é uma imagem de televisão. Como consegui
vindo de lá penetrar em seu quarto
é um mistério para ela
Ela não me indaga sobre isso
apenas pronuncia: há tantas coisas
que eu não entendo
Ah, menina, sabe,
Não sou a mais inteligente
E na retaguarda de sua sombra irrompe
o apartamento
Um caracol muito grande para um molusco, enterrado
na fenda do tempo, que não pertence à cidade
Tudo começa assim, ela está encolhendo
a cada ano, não é mais de se presenciar
o seu caminhar mundano, o seu piscar de olhos
como se lhe ardesse o ar esfumaçado
de um casino.
Talvez, diz ela e algum dia
e não quer se distanciar da sua janela
Ela se tornou tão delgada
Que não sente mais os dias
Ah, menina, diz ela,
Sabe, nós temos tempo.

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Leichtes Gefieder

Vielleicht zu spät, als eine Krähe
unseren Morgen kappt. Ein Schlag.
Und ob sie fällt und ob sie weiterfliegt —
Ich frag zu laut, ob du noch Kaffee magst.
Dein Blick ist schroff, wie aus dem Tag gebrochen.
Es riecht nach Sand. Du fragst mich, ob ich wisse,
dass Krähen einmal weiß gefiedert waren.
Ich lösch die Zigarette aus, ich wünsch mich
weg von hier, ich möchte niemanden,
ich möchte höchstens einen andern sehen.
Du nennst mich: Koronis. Ich zeig zum Fenster:
Sieh doch, die Aussicht hat sich nicht verändert!
Was gehen dich die Stunden an, die du nicht kennst?
Ich will nur Mädchen sein, nicht in Arkadien leben.
Dein Nagel scharrt noch in der Asche,
doch du bist still, als wärst du fort.
Ich bin zu leicht für deine Mythen.

 

Leves penas

Talvez tarde demais, quando um corvo
talha nossas manhãs. Um golpe.
E se ele cai ou se continua voando —
Indago muito alto se ainda queres café.
Teu olhar é brusco, como rompido pelo dia.
Cheira a areia. Tu me perguntas, se eu sabia
que os corvos já possuíram as penas brancas.
Apago o cigarro, desejo-me
distante daqui, não queria ninguém
queria no máximo ver outra pessoa.
Tu me chamas de Corônis*. Volto-me à janela:
Olha, a vista não mudou!
O que te importam as horas que não conheces?
Eu só quero ser menina, não viver em arcádias.
Tuas garras ainda cavoucam as cinzas,
mas tu estás imóvel, como se tivesses partido.
Sou muito leve para os teus mitos.

*Corônis (mitologia grega), amante de Apolo. Apolo colocou um corvo para vigiar a sua amante grávida, porém Ischys deitou-se com Corônis. Zeus o matou com um raio. E Apolo matou Corônis, retirou o seu filho, Esculápio, do ventre da mãe e o criou. O castigo para o corvo Ischys foi ser transformado de branco para preto.

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Rattenfänger

Zwei Jungen traf ich
unterm Brückenbogen nachts,
die pinkelten den Pfosten an und
sagten, dass sie sieben seien
sagten, dass sie Läuse hätten.
Sie lachten über mich, als ich
es glauben wollte. Nichts zu holen
außer Läuse, verriet der Kleinere.
Er zeigte aufs Gebüsch und trat
mir auf den Spann. Ich hätt mich gern
in ihn verliebt, so billig war
in jener Nacht sonst nichts mehr
zu erleben. Der Große fragte, ob es stimmt,
dass auch das Tier allein
nicht sterben kann. Es war
zu spät für Jungen unter dieser Brücke.

 

O flautista de Hamelin

Encontrei dois meninos
à noite sob o arco da ponte,
Mijavam no poste e disseram
que estavam em sete, e tinham piolhos
Riram de mim quando quase
acreditei. Não há nada a ganhar
além de piolhos, revelou-me o menor.
Apontou para os arbustos e pisou-me
no peito do pé. Queria muito ter me apaixonado
por ele, assim barato
a noite nada mais oferecia
para se vivenciar. O maior perguntou, se é verdade
que também os animais
são incapazes de morrer solitários. Era muito tarde
para meninos estarem debaixo de pontes.

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Standort

Wir leben in einer Stadt ohne Fluss, es gibt
Grenzen hier nur aus Wind
oder Regenschauern. Meine Schwester
ängstigt das nachts, doch es lässt sich
in unserem Haus nicht weinen, vielleicht
hülfe es ihr, vielleicht brächte es sie
um den Verstand. Es ist frostig
in ihrer Stimme. Ließen sich Entfernungen
ohne Fluss beschreiben, wären zum Wenigsten
die Ahnungen haltbar: Niemand
nähert sich unserem Haus und die Eltern
haben wir lang nicht gesehen.
Doch es gibt keinen Halt, diese Stadt ist
wie ein Schneerest im März. Nur der Wind,
der den Regen in seine Form treibt,
deutet ein Ortsende an. Unser Haus bleibt
von Eis bedeckt und verschwunden.

 

Localização

Vivemos em uma cidade sem rio, há
aqui apenas fronteiras de vento
ou de garoa. O que à noite
assusta minha irmã, mas não se pode
chorar em nossa casa, talvez
a ajudasse, talvez a fizesse perder
a razão. Em sua voz
há geada. Se as distâncias pudessem ser
descritas sem rio, pelo menos
nossas premunições seriam duráveis: ninguém
aproxima-se da nossa casa, e nossos pais
há muito tempo não os vemos.
Mas não há nada que se possa fazer, a cidade é
como uma remanescente de neve em março. Apenas o vento
esvoaça o formato da chuva,
esboça o fim do lugar. Nossa casa permanece
coberta de gelo e desaparecimento.

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Geweihe

Das Spiel ist abgebrochen. Wie sollen wir
jetzt noch an Märchen glauben? Die Äste
splittern nachts nicht mehr, kein Wild,
das durch die Wälder zieht und das Gewitter
löst sich in Fliegenschwärmen auf. Gleichwohl,
es bleibt dabei: Das Jucken unter unsern Füßen
ist kein Tannenrest, kein Nesselblatt, wir folgen noch
dem Dreierschritt, den sieben Bergen und auch
dem Rehkitz Brüderchen und seiner Liebsten.
Erzähl mir die Geweihe an die Wand, erzähl mir
Nadeln in die Fliegen. Im rechten Moment
vergaßen wir zu stolpern.
Schneewittchen schläft.

 

Galhadas

O jogo foi interrompido. Como ainda devemos
acreditar em contos de fadas? As hastes
não se rompem mais à noite, nenhum animal selvagem
atravessa a floresta nem a tempestade
dissipa-se como enxame de inseto. Mesmo assim,
nada muda: a coceira na sola dos nossos pés
não é resíduo de pinho, não é folha de urtiga, ainda seguimos
a regra de três, as sete montanhas, e também
o irmãozinho que virou cabrito* e seus entes queridos.
Conte-me sobre os chifres na parede, conte-me sobre as
agulhas nos insetos. No tempo certo
esquecemos de tropeçar.
Branca de Neve está dormindo.

*o irmãozinho que virou cabrito, alusão ao conto de fadas alemão, Irmãozinho e Irmãzinha, pertencente à coleção dos irmãos Grimm.

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Reglose Jagd

Die Ställe hangabwärts, es heißt, den Hasen
habe ein Marder geholt, ein Fuchs, niemand
ist sicher, man lebt hier selten
des Nachts. Das Haus zu groß
für ein Haus, die Menschen zu reich,
nicht aus meiner Zeit. Dennoch gehen wir
auf die Jagd gemeinsam, durch die verwachsenen
Ränder des Familienerbes, kein Tier
knackt das Unterholz, kein Kadaver
legt seinen Geruch wie ein spukender Ahne
an die Grenze des Grundstücks. Ich glaube, alles
hält die Terrasse verborgen, niemand
folgt mir nach, wie sollten sie auch, meine Tage
liegen anderswo. Nur die Seeadler auf den Pfosten
lassen mich nicht aus dem Blick, ich fühle
ihre gefeilten Augen mir in den Nacken starren,
bis ich stürze, doch das ist unwesentlich, nur
Eine kurzfristig Veränderung des alten Gebäudes.

 

Caçada inerte

Os estábulos na encosta, quer dizer, uma lebre
buscou uma marta, uma raposa, ninguém
tem certeza, aqui se vive estranhas coisas
noturnas. A casa grande demais
para uma casa, as pessoas demais ricas
não são da minha época. Mesmo assim vamos juntos
caçar através das margens crescidas da herança familiar
nenhum animal rói a vegetação rasteira, nenhum cadáver
deposita o seu cheiro como a assombração de um parente
no marco da propriedade. Acredito, tudo
é para manter a varanda oculta, ninguém
me segue, como deveriam se os meus dias
estão em outro lugar. Somente as águias nos postes
não cessam de me mirar, sinto seus
olhos afiados penetrarem nas minhas costas
até eu cair, mas não importa,
não passa de uma breve mudança na velha construção.

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