Quase-diário

fevereiro 2016 / Quase-diário / Marília Pêra e Collor

Texto publicado na edição #189

Marília Pêra e Collor

Um jantar na casa de Marília Pêra e os desmandos do governo Collor

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

A atriz Marília Pêra

A atriz Marília Pêra

31.01.1990
Fomos jantar com Marília Pêra e Ricardo seu marido, ex-psicanalista, Cacá Diegues e Renato Paulo César (da rádio e TV), Moacyr Deriquem, Marilena Cury, convidado por Leonardo Loyo, no Maxims. Era aniversário de Marília. Ela queria externar seu agradecimento a mim pela força que lhe dei durante a eleição no episódio de patrulhamento do PT.

Contou como os petistas iam assistir ao espetáculo Elas por Elas ostensivamente usando suas camisas e distintivos, interpelando na hora dos debates. O pior foi a passeata, pessoas vaiando do lado de fora do teatro. Contou que Gonzaguinha aconselhou-a a se aproximar de novo das esquerdas, a “telefonar” para o Chico. Apesar de ela ter se oferecido para cantar no show em benefício do filho de Nana Caymmi, está duvidando se vai e se lá vão vaiá-la de novo.

Minhas crônicas n’O Globo contam um pouco do clima. Ficamos o dia inteiro ligados nas eleições. Lula crescendo, agora 40% x 49% de Collor; cresceu 50% em cinco dias, dentro da diferença anterior que dava 37% Lula e Collor 52%.

Os programas mostram: o PT sobretudo forja mais as notícias, mente mais. É melancólico.

Acabei me envolvendo na questão das patrulhas ideológicas. Os petistas fizeram uma passeada no Teatro onde Marília Pêra representa em São Paulo, hostilizando-a. Fernanda Montenegro começou um manifesto defendendo a livre expressão, já que os petistas pressionam Marília porque ela é a favor de Collor.

Escrevi uma crônica contra a patrulha e inseri parte de um poema do argentino Armando Tejada Gomes sobre o extremismo político:

Já que o mundo é redondo, é recomendável
Não se posicionar à esquerda da esquerda
Pois, além daquele declive, aqueles
Que são distraídos acabam na direita.
Conhecem-se vários casos. E eles têm se repetido muito.
Nesses dias de confusa urgência.

Marília me mandou um bilhete comovida, respondi-lhe com um telegrama de apoio. Ela, então resolveu referir-se a mim dentro do programa do Collor, leu o poema e disse honestamente que não sabia quem era o meu candidato, mas reforçava que o importante é que cada um votasse em quem quisesse, sem patrulhamento.

18.12.1989
Collor ganhou as eleições. Uma hora depois de encerrada a votação, três pesquisas de boca de urna o davam como vencedor. Na última semana, no horário gratuito, um depoimento da ex-mulher de Lula contando coisas brabas sobre ele: abandonou a filha, não dava pensão, é racista. Discutia-se se isso ajudou ou atrapalhou Collor. O fato é que Lula parecia abatido no debate. E dizem que havia a ameaça de Collor revelar algo sobre um presente (aparelho de som) que Lula teria dado a uma amante

15.03.1990
Tomou posse Fernando Collor de Mello. O país todo esperançoso. Até os inimigos. Ele passa uma certa energia.

04.05.1990
Os jornais como Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil começam a elogiar Collor, sobretudo agora que vai botar 300 mil funcionários públicos na rua, enfrentou um general que discursou contra a extinção do SNI e começa a privatização.

19.10.1990
Ando abatido com o governo Collor. Eu e muita gente. O governo parecia ir tão bem, de repente, o estapafúrdio romance Zélia-Bernardo Cabral e tudo fica abalado. Chacota na imprensa nacional e internacional. Bernardo parece um bobo triste, apareceu de improviso, depois de demitido, na sessão da CPI onde Zélia falava, constrangendo a todos. E agora a demissão do Motta Veiga (da Petrobrás) e choque com o governo.

Carlos me contou que num almoço de ex-presidentes da Petrobrás, Mota Veiga confessou que não aguentava mais. Carlos diz que PC quis dinheiro da Petrobrás, processo de corrupção. Mota Veiga resistiu.

E Collor em tudo isso? Enigma.

E agora dizem (Já apareceu na imprensa) que Zélia está grávida.

Estou preocupadíssimo. E começo a ficar desapontadíssimo.

Por essas e por outras que o papo de ser secretário de Cultura no lugar do Ipojuca fica, para mim, cada vez mais absurdo.

10.02.1991
Os jornais estão narrando a toda hora os desmandos da mulher do presidente: prepotência e interferência fisiológica na política, dentro e fora de Alagoas. Fico pensando num bom ensaio: Entre o estado e a família — analisando a questão do pessoal/impessoal em política, aprofundando o que DaMatta colocou hoje no JB quando analisou a escandalosa foto em que Moreira Franco, governador, recebe no Palácio Laranjeiras o comando do jogo do bicho/escolas de samba, dando assim um aval à marginalidade.

Eu deveria me referir “à família Vargas”, “família Sarney”, família dos “militares” durante a ditadura — mistura da coisa pública e privada.

Tenho a impressão de que Collor vive uma ambiguidade: a sociedade arcaica (sua família) e a sociedade moderna (sua intuição). De um lado a corrupção política em Alagoas e o grupo dos “sete amigos”, e o PC, de outro a equipe econômica e o desejo dele de querer fazer uma política de primeiro mundo.

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