Dom Casmurro

janeiro 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Jack Gilbert

Texto publicado na edição #187

Poemas de Jack Gilbert

Poemas traduzidos do poeta norte-americano Jack Gilbert

> Por André Caramuru Aubert

O poeta Jack Gilbert

O poeta Jack Gilbert

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Pouco conhecido no Brasil, Jack Gilbert (1925-2012) era um poeta sem pressa. Embora tenha escrito durante a vida toda, sua produção é relativamente pequena. Foram apenas cinco coleções publicadas em vida, completadas por um volume de Collected Poems (finalista do Pulitzer) editado logo após a sua morte, com a inclusão de 21 inéditos em livros. Minucioso e perfeccionista, Gilbert burilava ao extremo seus versos. Assim, a escassez de poemas não torna mais fácil a tarefa de selecionar, muito pelo contrário: foi muito sofrido deixar algum de fora. A vida no campo, as mulheres que amou e perdeu (como a poeta Linda Gregg, de quem se separou, ou a professora Michiko Nogami, de quem ficou viúvo), a memória e pequenos fatos da rotina estão entre os temas prediletos do poeta.

O primeiro livro de Jack Gilbert, Views of Jeopardy, de 1962, conquistou o prêmio para Jovens Poetas de Yale e foi indicado para o Pulitzer, e todos os livros seguintes também ganhariam prêmios importantes. Além disso, as principais revistas culturais norte-americanas, como The New Yorker e Poetry, sempre publicaram seus poemas. O que é um relativo milagre, dado o estilo de vida recluso do poeta, que gostava de morar no campo e não frequentava rodas literárias. Para esta amostra, procurei selecionar poemas de todos os livros de Gilbert.

Getting it right

Lying in front of the house all
afternoon, trying to write a poem.
Falling asleep.
Waking up under the stars.

 

Fazendo direito

Estirado na frente da casa a tarde
inteira, tentando escrever um poema.
Caindo no sono.
Acordando sob as estrelas.

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Alone on Christmas Eve in Japan

Not wanting to lose it all for poetry.
Wanting to live the living. All this year
looking on the graveyard below my apartment.
Holding myself tenderly in this marred body.
Wondering if the quiet I feel is that happiness
wise people speak of, or the modulation
that is the acquiescence to death beginning.

 

Sozinho no Japão na véspera de Natal

Não querendo perder tudo para a poesia.
Querendo viver vivendo. Por todo este ano
olhando para o cemitério abaixo do meu apartamento.
Docemente me controlando neste corpo arruinado.
Imaginando se a calma que eu sinto é a felicidade
da qual as pessoas inteligentes falam, ou a mudança
que é aceitação do começo da morte.

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A year later

For Linda Gregg

From this distance they are unimportant
standing by the sea. She is weeping, wearing
a white dress, and the marriage is almost over,
after eight years. All around is the flat
uninhabited side of the island. The water
is blue in the morning air. They did not know
this would happen when they came, just the two
of them and the silence. A purity that looked
like beauty and was too difficult for people.

 

Um ano depois

Para Linda Gregg

Dessa distância eles são insignificantes
parados junto ao mar. Ela, de vestido branco
chora, e o casamento está quase acabado,
depois de oito anos. Em volta está o
lado plano e inabitado da ilha. A água
está azul no ar da manhã. Eles não sabiam que
isso ia acontecer quando vieram, apenas os
dois e o silêncio. Uma pureza que se parecia
com a beleza e que era difícil demais para as pessoas.

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Michiko Nogami (1946-1982)

Is she more apparent because she is not
anymore forever? Is her whiteness more white
because she was the color of pale honey?
A smokestack making the sky more visible.
A dead woman filling the whole world. Michiko
said, “The roses you gave me kept me awake
with the sound of their petals falling.”

 

Michiko Nogami (1946-1982)

Será ela mais visível porque não é mais
nada, para sempre? Será a sua brancura mais branca
porque ela tinha a cor do pálido mel?
Uma chaminé deixando o céu mais nítido.
Uma mulher morta preenchendo o mundo todo. Michiko
disse, “As rosas que você me deu me mantêm desperta
com o som de suas pétalas caindo.”

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Rain

Suddenly this defeat.
This rain.
The blues gone gray
and yellow
a terrible amber.
In the cold streets
your warm body.
In whatever room
your warm body.
Among all the people
your absence.
The people who are always
not you.

I have been easy with trees
too long.
Too familiar with mountains.
Joy has been a habit.
Now
suddenly
this rain.

 

Chuva

De repente este revés.
Esta chuva.
Os azuis virando cinza
e amarelo
um terrível âmbar.
Nas ruas geladas
o seu corpo quente.
Em um aposento qualquer
o seu corpo quente.
No meio de todas as pessoas
a sua ausência.
As pessoas que são, sempre
sem ser você.

Eu tenho me dado bem com as árvores
por muito tempo.
Muito próximo às montanhas.
A felicidade tem sido um hábito.
E agora
de repente
esta chuva.

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And she waiting

Always I have been afraid
of this moment:
of the return to love
with perspective.

I see these breasts
with the others.
I touch this mouth
and the others.
I command this heart
as the others.
I know exactly
what to say.

Innocence has gone
out of me.
The song.
The song, suddenly,
has gone out
of me.

 

E ela esperando

Sempre tive medo
deste momento:
da volta ao amor
em perspectiva.

Eu vejo estes peitos
com os outros.
Eu toco esta boca
e as outras.
Eu controlo este coração
como a outros.
Eu sei exatamente
o que dizer.

A inocência se foi
de mim.
A canção.
A canção, de repente,
se foi
de mim.

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Valley of the owls

Night rises up from the fields
as the stars gather. Under the earth
are the stones and holding the stones
together is the silence. His heart
smelling of the cypress tree.
The whole valley at dawn sweet
with its emptiness. There is a door
in the wind, lima bean soup on the stove.
Tomorrow begins in the dark.
Today is the mountain of what we have
become. Surprised to be alive
in the abundance of time. Two thousand
six hundred and twenty days,
four thousand nights another time.
The red on the large woodpecker
four times in pine trees.
The hoopoe in the chinaberry tree
only once. Wang Wei[1] in his loneliness
noticing the first raindrops
in the light dust.

 

O Vale das Corujas

A noite se levanta dos campos
conforme as estrelas se reúnem. Sob a Terra
estão as rochas e mantendo juntas as
rochas está o silêncio. O coração dele
cheirando a cipreste.
Todo o vale, doce no amanhecer
em seu vazio. Há uma porta
no vento, a sopa de feijão-de-lima no fogão.
Amanhã começa na escuridão.
Hoje é a montanha daquilo que nós
nos tornamos. Surpreso em estar vivo
na abundância de tempo. Dois mil e
seiscentos e vinte dias,
quatro mil noites e um outro tempo.
O vermelho no grande pica-pau
quatro vezes nos pinheiros.
A poupa no galho de cinamomo
uma vez apenas. Wang Wei em sua solidão
notando os primeiros pingos de chuva
na poeira leve.

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Before morning in Perugia

Three days I sat
bewildered by love.
Three nights I watched
the gradations of dark.
Of light. Saw
three mornings begin,
and was taken each time
unguarded
of the loud bells.
My heart split open
as a melon.
And will not heal.
Gives itself
senselessly
to the old women
carrying milk.
The clumsy men sweeping.
To roofs.
God protect me.

 

Antes do amanhecer em Perúgia

Três dias eu sentado
desnorteado de amor.
Três noites eu observei
as gradações do escuro.
Da luz. Vi
surgirem três manhãs,
e cada vez fui pego
desprevenido
pelo badalar dos sinos.
Meu coração cortado e aberto
como um melão.
E não vai cicatrizar.
Ele se entrega
inconsequente
às mulheres velhas
que levam o leite.
Os desajeitados homens varrendo.
Aos telhados.
Deus me proteja.

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Alba

After a summer with happy people,
I rush back, scared, gulping
down pain wherever I can get it.

 

Alba

Depois de um verão com pessoas felizes,
eu corro de volta, apavorado, pondo
goela abaixo a dor onde quer que a encontre.

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A kind of world

Things that are themselves. Waves water, the rocks
stone. The smell of her arms. Stillness. Windstorms.
The long silence again. The well. The rabbit. Heat.
Nipples and long thighs. Her heavy bright mane.
Plunging water flashing as she washes her body in the sun.
“Perfect in whiteness.” Light going away every evening
like some great importance. Grapes outside the windows.
Linda talking less and less. Going down to the sea
while she sleeps. Standing in the cold water to my mouth
just before morning. Linda saying late in the day
we should eat now or it would be too dark to wash the dishes.
She going out quietly afterward to scream into the wind
from the ocean. Coming in. Lighting the lamps.

 

Uma qualidade de mundo

Coisas que são elas mesmas. Ondas de água, as rochas
pedra. O cheiro dos braços dela. A quietude. Vendavais.
O longo silêncio novamente. O poço. O coelho. Calor.
Mamilos e longas coxas. A juba brilhante e longa que ela tem.
O brilho da imersão na água enquanto ela se banha sob o sol.
“Perfeita em sua brancura.” A luz indo embora todas as tardes
se dando ares de importância. Videiras do lado de lá das janelas.
Linda falando menos e menos. Descer até o mar
enquanto ela dorme. Imerso na água fria até a boca
pouco antes do amanhecer. Linda dizendo no fim do dia
deveríamos comer agora ou ficará escuro para lavar os pratos.
Ela saindo logo depois para gritar no vento
que vem do mar. Entrando em casa. Acendendo as lamparinas.

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The rainy forests of Northern California

The fellow came back to rape her again last night,
but this time her former husband was there.
Why did you rape her, you son of a bitch? he said.
I didn’t, he answered, she let me.
Sure, because you hit her, that’s why she let you.
And it dwindled away into definitions.

 

As florestas chuvosas do norte da Califórnia

O sujeito voltou para estuprá-la de novo ontem à noite,
mas desta vez o seu ex-marido estava lá.
Por que foi que você a estuprou, seu filho da puta? ele disse.
Eu não estuprei, ele respondeu, ela deixou.
É, porque você bateu nela, foi por isso que ela deixou.
E aquilo se perdeu em definições.

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Textures

We had walked three miles through the night
when I had to piss. She stopped just beyond.
I aimed at the stone wall of a vineyard,
but the wind took it and she made a sound.
I apologized. “It’s all right,” she said out
of the dark, her voice different. “I liked it.”

 

Texturas

Nós já havíamos andado três milhas através da noite
quando eu precisei mijar. Ela parou um pouco atrás.
Eu mirei no muro de pedra de um vinhedo,
mas o vento carregou a urina e ela fez um barulho.
Eu me desculpei. “Está tudo bem,” ela disse,
no escuro, sua voz diferente. “Eu gostei.”

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Married

I came back from the funeral and crawled
around the apartment, crying hard,
searching for my wife’s hair.
For two months got them from the drain,
from the vacuum cleaner, under the refrigerator,
and off the clothes in the closet.
But after other Japanese women came,
there was no way to be sure which were
hers, and I stopped. A year later,
repotting Michiko’s avocado, I find
a long black hair tangled in the dirt.

 

Casados

Eu voltei do funeral e fiquei revirando
o apartamento todo, chorando alto,
procurando por fios de cabelo da minha mulher.
Por dois meses eu os tirei do ralo,
do aspirador de pó, do chão sob a geladeira,
e de roupas guardadas no armário.
Mas depois que outras japonesas vieram,
não havia mais como eu ter certeza de quais eram
os dela, e eu parei. Um ano mais tarde,
replantando o abacate de Michiko, eu encontrei
um longo fio de cabelo negro misturado à terra.

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Steel Guitars

The world is announced by the smell of oregano and sage
in rocky places high up, with white doves higher still
in the blue sky. Or the faint voices of women and girls
in the olive trees below, and a lustrous sea beneath that.
Like thoughts of lingerie while reading Paradise Lost
in Alabama. Or the boy in Pittsburgh that only summer
he was nine, prowling near the rusty railroad yard
where they put up vast tents and a man lifted anvils
with chains through his nipples. The boy listened
for the sound that made him shiver as he ran hard
across the new sawdust to see the two women again
on a platform above his head, indolent and almost naked
in the simple daylight. Reality stretched thin
as he watched their painted eyes brooding on what
they contained. He vaguely understood that it was not
their flesh that was a mystery but something on the other
side of it. Now the man remembering the boy knows
there is a door. We go through and hear a sound
like buildings burning, like the sound of a stone hitting
a stone in the dark. The heart in its plenty hammered
by rain and need, by the weight of what momentarily is.

 

Steel Guitars

O mundo é anunciado pelo cheiro de orégano e sálvia
nos lugares pedregosos lá no alto, com as pombas brancas ainda mais alto
no céu azul. Ou a voz abafada de mulheres e crianças
nas oliveiras lá embaixo, e mais além um resplandecente mar.
Como era pensar em lingerie enquanto lia Paraíso Perdido
no Alabama. Ou o menino em Pittsburgh naquele verão único
em que ele tinha nove anos, perambulando por perto da velha área da ferrovia
onde eles montaram grandes tendas e um homem levantava bigornas
com correntes presas em seus mamilos. O menino ouvia
o som que o fazia ter arrepios enquanto corria rápido
através das serragens para ver as duas mulheres novamente
em uma plataforma sobre a sua cabeça, preguiçosas e praticamente nuas
na pura luz do dia. A realidade se estreitava
enquanto ele olhava os olhos delas, pintados aninhados naquilo
que os continha. Ele vagamente entendeu que não estava nas
carnes delas o mistério, mas em alguma coisa no lado de
lá. Agora o homem se lembrando do menino sabe que
existe uma porta. Nós a atravessamos e ouvimos um som como
o de prédios queimando, como o som de pedra batendo em
pedra no escuro. O coração em sua plenitude martelado
por chuva e necessidade, pelo peso do que momentaneamente é.

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In Umbria

Once upon a time I was sitting outside the café
watching twilight in Umbria when a girl came
out of the bakery with the bread her mother wanted.
She did not know what to do. Already bewildered
by being thirteen and just that summer a woman,
she now had to walk past the American.
But she did fine. Went by and around the corner
with style, not noticing me. Almost perfect.
At the last instant could not resist darting a look
down at her new breasts. Often I go back
to that dip of her head when people talk
about this one or that one of the great beauties.

 

Na Úmbria

Era uma vez eu estava sentado no lado de fora do café
observando o anoitecer na Úmbria, quando uma garota saiu
da padaria com o pão que sua mãe pedira.
Ela não sabia o que fazer. Já desconcertada
por ter treze anos e bem naquele verão virar mulher,
ela agora precisava passar pelo americano.
Mas ela se virou bem. Passou e contornou a esquina,
com estilo, sem me dar importância. Quase perfeita.
No último instante não pude resistir em lançar os olhos
aos seus peitos novos. Com frequência eu volto
àquela reverência de sua cabeça, quando as pessoas falam
sobre uma ou outra das grandes beldades.

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More than sixty

Out of money, so I’m sitting in the shade
of my farmhouse cleaning the lentils
I found in the back of the cupboard.
Listening to the cicada in the fig tree
mix with the cooing doves on the roof.
I look up when I hear a goat hurt far down
the valley and discover the sea
exactly the same blue I used to paint it
with my watercolors as a child.
So what, I think happily. So what!

 

Mais de sessenta

Sem dinheiro, estou sentado à sombra
da casa na minha fazenda limpando as lentilhas
que eu encontrei nos fundos do guarda-louça.
Ouvindo a cigarra na figueira
mesclada ao arrulho dos pombos no telhado.
Eu levanto os olhos quando ouço uma cabra ferida
lá embaixo no vale e descubro o mar
exatamente da mesma cor com que eu costumava
pintá-lo com minhas aquarelas quando criança.
E daí, eu penso feliz. E daí!

NOTA
[1] Wang Wei (699-759) foi um poeta chinês do período Tang.

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