Entrevistas

julho 2011 / Entrevistas / “É possível formar um leitor mais exigente”

Texto publicado na edição #136

“É possível formar um leitor mais exigente”

Entrevista com Luís Augusto Fischer, autor de Filosofia mínima

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

 

Luís Augusto Fischer: “Sou lisamente freudiano e anti-romântico: quanto mais a gente sabe, melhor fica”. Foto: Luciana Thomé

 

Na entrevista que segue, respondida por e-mail, Luís Augusto Fischer dá pistas sobre suas referências intelectuais no que concerne à crítica cultural (“Tenho muito mais afinidade com a visão crítica de gente como Machado de Assis e Jorge Luis Borges, ou Antonio Candido e George Steiner, por exemplo, leitores que não rejeitam o novo de qualidade”), assim como salienta não ter problemas em conservar alguns postulados já estabelecidos (“o antigo e consagrado traz consigo uma força que merece ser conhecida e que, por isso mesmo, merece ser acolhida com humildade e discernimento”). A propósito da leitura, o autor de Filosofia mínima assinala que o ensino e a mídia não podem fugir à responsabilidade de oferecer chances de ler melhor.

• Na seção O autor se apresenta o senhor diz que este é um livro que gostaria de ter lido: “coleção de memórias, palpites, ensinamentos, reflexões de um professor de literatura”. O quão necessário e urgente é esse tipo de abordagem em relação à formação do leitor crítico no Brasil?
Quem sou eu para responder… Claro que meu livro pretende contribuir para formar competentes leitores, especializados ou leigos, mas não sei se consegui de fato isso. Posso dizer que livros como o meu, modéstia posta de lado agora, podem contribuir para essa tarefa na medida em que a leitura direta e única dos livros da grande tradição literária muitas vezes não é suficiente: a crítica, a mastigação, o comentário sobre essa tradição muitas vezes são decisivos para o leitor se apropriar de fato daquele patrimônio. Quanto à primeira parte do enunciado, também convém esclarecer que essa imagem (o livro que eu gostaria de ter lido) me ocorreu quando eu escrevia o livro: eu sinceramente gostaria de ter lido, nos meus anos de formação inicial, o depoimento de um calejado professor de literatura, que me mostrasse o seu processo de aprendizado, as dificuldades práticas que ocorrem em sala de aula, enfim, que desse este depoimento humano da profissão. Espero poder oferecer isso aos meus leitores.

• Na chamada “era da informação”, o leitor comum tem à sua disposição uma grande oferta de textos (dos noticiosos aos acadêmicos, passando, claro, pelos literários). O senhor acredita que, em longo prazo, ele pode se tornar um leitor mais experimentado?
Pela variedade de textos hoje disponíveis e pelo próprio fato de que a comunicação via internet (e-mails, redes sociais) nos obriga a escrever bem mais do que uma geração atrás, minha resposta é sim, podemos estar presenciando uma novidade positiva na formação dos leitores. Mas não se pode subestimar as fragilidades que acompanham esse nosso tempo, em particular as que dizem respeito à escola e à mídia, de modo geral: nem o ensino (na escola ou na universidade), nem jornais e revistas podem se eximir da tarefa de ajudar a esclarecer o leitor, oferecendo-lhe chances de ler melhor, com mais discernimento e proficiência.

• No tocante à formação de leitores, qual deve ser o papel dos professores (no ensino fundamental, médio e superior) em relação aos alunos? É possível interessar jovens — cada vez mais dispersos — por algo mais reflexivo, como é o caso da literatura?
Bem, uma parte grande do meu livro se dedica justamente a essa pergunta. Em linhas gerais, diria que o professor tem um papel muito maior do que sua capacidade de representá-lo, em regra, por um motivo medonho: é que, como em geral as famílias não formam leitores, porque os pais não são um exemplo vivo da validade e do prazer da leitura, o professor acaba acumulando duas tarefas nesse campo; primeiro a sua, que é ou deveria ser a de aperfeiçoar o leitor, oferecendo-lhe as melhores indicações, os quadros históricos relativos aos livros, os comentários que adensam a percepção, etc., com a outra tarefa, que não precisaria ser sua, que é a de formar o leitor inicial. De todo modo, sim, é possível formar o leitor mais exigente; creio que o Brasil nisso está melhorando enormemente, nos últimos anos.

• Em um dos ensaios do livro, Teses sobre crítica e jornalismo cultural, o senhor comenta acerca da formação do crítico cultural. Como observa essa formação no Brasil? Existe uma nova geração de críticos ou mesmo de perspectiva crítica original por aqui?
Difícil tentar responder genericamente, porque bem pode haver e excelentes críticos que eu desconheço. Mas arriscando uma generalização, não tenho visto críticos culturais novos e de bom nível em atuação nos jornais e revistas que acompanho. Talvez isso se deva mais à fragilidade da imprensa impressa (com perdão da quase redundância) de nosso tempo, sem espaço para os talentos se desenvolverem. Um crítico cultural relevante depende de tempo e espaço para se apresentar, ganhar leitores, impor seu estilo e enfim evidenciar a força de sua visão. Não se trata apenas de este crítico ter volume de informação e volúpia pela opinião: ele precisa ter um ponto de vista que preste e que seja de algum modo representativo de sua época e lugar. Isso não tem aparecido, salvo engano. Quando aparece algo assemelhado, muitas vezes é apenas um narciso faceiro por dar pedradas e/ou por dispor de espaço para estender suas frases. Por outro lado, creio que estamos vendo nascer (renascer?) uma mentalidade de reportagem cultural interessante, por exemplo na revista Piauí — não sempre, não em todo número, mas encontrável sim, um pouco no rastro, creio eu, da especialização dessa publicação em reportagens — e reportagem é coisa de que carecemos muito —, e um tanto tendo como exemplo recentes biografias feitas no país, algumas de ótimo nível.

• Em pelo menos dois momentos do livro (nos textos A arte contra a vida e Não confunda análise com interpretação), o senhor ataca o que pode ser considerado senso comum mesmo entre leitores qualificados. O senhor acredita que a crítica cultural esteja mais qualificada para enfrentar o debate e assumir os riscos de entender os paradigmas estéticos de seu tempo?
Será que eu ataco o senso comum de leitores qualificados, mesmo? Se tais leitores se sentirem atacados por esses meus textos, que apenas expõem de modo organizado alguns princípios quase elementares de análise, não sei se a gente pode de fato considerá-los leitores qualificados. O que ali se ataca é justamente a leitura ruim, a leitura que não respeita a autonomia da forma e que não consegue distinguir entre sua visão de mundo, de ordem subjetiva, e o livro ou o elemento cultural que tem diante de si, com sua objetividade e concretude. Não se trata de um problema relativo ao que a pergunta chama de “paradigmas estéticos de nosso tempo”, mas, na minha visão, de uma questão que diz respeito à leitura crítica em si, quase poderia dizer, exagerando, à leitura crítica tal como existe no Ocidente desde o Renascimento, quando se desenhou a separação ontológica entre literatura e religião, assim como entre o indivíduo leigo e o fiel seguidor de uma religião.

• Já em outro ensaio, Verdades gerais de ler, o senhor comenta que, diante de um texto consagrado, em caso de alguma dificuldade da leitura, pode ter certeza que o problema é do leitor. Sobre isso, duas perguntas: de algum modo, não teme que essa visão seja qualificada como elitista? E mais: na academia, esse ponto de vista é considerado (preconceituosamente) como conservador?
Sim, é um ponto de vista elitista, se tu quiseres usar o termo em sentido descritivo (porque de fato é a uma elite de livros que me refiro), e é um ponto de vista conservador, de modo mais amplo. Ele parte da certeza de que os grandes livros são grandes porque passaram pelo duro critério do tempo, das leituras feitas por sucessivas gerações, resistindo à voragem que consome e dissolve tanta coisa. Não tenho ilusões demasiadas: sei que os livros que permanecem sendo lidos não são seres celestiais, isto é, continuam a ser históricos, condicionados pela história, na leitura e na recepção, e por isso certamente são, devem ser, passíveis de crítica, de argüição, até mesmo de eventual destronamento. Por outro lado, também sei que livros não valorizados pelo cânone estabelecido podem ter interesse, podem voltar a falar aos leitores na medida em que sua forma se torne eloqüente como não tiver sido antes. E sei ainda que livros novos podem bem passar à condição de leituras imprescindíveis. Tudo isso faz parte da dinâmica da vida cultural. Talvez eu deva complementar a resposta discutindo o fundamento da pergunta: de fato, o elitismo e o conservadorismo da minha posição são, em última análise, resultado da minha atitude não-vanguardista de ver o mundo. Só a supremacia da visão vanguardista (no Brasil, em regra associada ou associável à modernistolatria, para mim uma atitude tola) é que julga que o melhor é o novo, o que rompe, o que transgride, o que faz cara feia para a tradição. Essa visão das coisas, que está consagrada por aí, na maior parte dos manuais de literatura brasileira e na maior parte das cabeças dos críticos em atuação no país, essa visão das coisas tem grande afinidade com uma perspectiva adolescente, de rebeldia um tanto desordenada, genuína por um lado (o lado da vida do jovem), mas fraca de outro (o lado da cultura letrada). Tenho muito mais afinidade com a visão crítica de gente como Machado de Assis e Jorge Luis Borges, ou Antônio Candido e George Steiner, por exemplo, leitores que não rejeitam o novo de qualidade, nunca, mas que sabem que o antigo e consagrado traz consigo uma força que merece ser conhecida e que, por isso mesmo, merece ser acolhida com humildade e discernimento.

• O assunto “escrever” ocupa a segunda parte do seu livro. Ainda assim, nota-se que a preocupação com a escrita perpassa toda a obra. Isso é interessante num cenário como o contemporâneo, em que há um verdadeiro gargalo, mesmo na formação superior, em relação à comunicação escrita. Na sua concepção, de que maneira esse leitor a ser forjado na Filosofia mínima pode se qualificar a escrever?
Outra pergunta vasta, que requereria páginas longas, que de resto estão no livro, creio. Genericamente: melhorar a escrita só pode ocorrer mediante exercício, redação, leitura, redação, leitura, ad infinitum. Pessoalmente, creio que a gente melhora na escrita quanto mais consciência tem sobre os diversos aspectos envolvidos na escritura — desde questões de ordem técnica (escolha de vocabulário, ordem da frase, etc.) até outras de ordem psicológica (o peso do investimento que a gente faz ao escolher este ou aquele caminho argumentativo ou narrativo, etc.), passando por questões de arquitetura, digamos (posição do narrador, ponto de vista, etc.). Neste ponto sou lisamente freudiano e anti-romântico: quanto mais a gente sabe, melhor fica.

• A propósito do estilo dos ensaios, é perceptível a condução do leitor aos argumentos-chave do texto. Em muitos trechos, existe mesmo o diálogo entre o autor e o “prezado leitor”. Essa proposta veio naturalmente em seus textos ou foi preciso alguma adequação ou reescrita?
Em minha vida, o ensaio sempre foi um tema forte. Sou talvez mais leitor de ensaios do que de qualquer outro gênero literário. Meu doutorado, publicado faz pouco (Inteligência com dor — Nelson Rodrigues ensaísta, também da editora Arquipélago), versa sobre o gênero: faço nele uma comparação extensa entre as ditas crônicas do grande autor brasileiro e os ensaios de Montaigne. Digo isso para expressar, em última análise, meu grande interesse no tema, melhor dizendo, na forma do ensaio, que é meu modelo ideal de texto. Exagerando um pouco, poderia dizer que desde que comecei a estudar Letras persigo este tema, corro atrás dele, tento escrever segundo suas premissas. Se eu consigo realizar este ideal é questão que o leitor deve julgar.

LEIA RESENHA DE FILOSOFIA MÍNIMA, DE LUÍS AUGUSTO FISCHER.

Print Friendly